i didn't have it in myself to go with grace

by - sexta-feira, outubro 30, 2020

Alguém um dia disse que os amores desgraçados rendem boas histórias. Eu não sei ao certo quem disse nem se concordo. A verdade é que este é mais um texto que eu gostaria de não precisar escrever. Dia desses, numa dessas sessões de terapia em que a gente não faz mais do que dizer “sim (...) é mesmo (...) concordo” entre soluços e um choro de algo preso na garganta, minha terapeuta me disse que eu tenho uma forma muito particular de me causar dor: ignorando a dor que sinto em prol de curar a dor de quem me causou a minha. Este texto é um pedido de desculpas a mim mesma, é uma ode à minha dor e, por fim, uma despedida.

 

Eu sinto que todos os meus textos de amor acabam vindo parar neste blog. Ou, talvez, todos os meus textos do que eu acho que é o amor, mas, em especial, do fim dele. Há algum tempo eu já não sei mais distinguir o que é amor do que é apenas um amontoado de sentimentos confusos demais, que no final me deixam mais bagunçada, machucada e traumatizada do que antes. Aquela infeliz frase sobre aceitarmos o que achamos que merecemos é uma das coisas mais cruéis que existem; como é que eu vou aceitar o que acho que mereço, quando reiteradamente eu só recebi o mal e pensei que era tudo que havia? Como eu vou conhecer o que é tranquilo e conseguir me apegar a ele sendo, ao mesmo tempo, livre? Como aprender a amar, quando tudo o que conheço do amor parece me machucar? Sou só eu, num quarto qualquer, sozinha. Sou só eu e os meus pedacinhos, que ficaram ali sem que eu me desse conta de quantos murros levei sem perceber, sem reagir, sem saber a linguagem que impõe limites e estabelece parâmetros de tratamento do que imagino ser o amor. Quando dou por mim, já estou só os meus pedaços.

 

Se amor é tudo o que eu acho que me machuca, como eu vou ser capaz de, um dia, merecer o amor que faz bem?

 

Eu acredito que mereço o que me faz mal?

 

No fundo, meu medo é que a resposta seja: sim, eu aceito, porque acho que mereço. Porque dizer sim implica dizer que tenho, ano após ano, convivido com uma inimiga, com alguém que desconhece ou ignora minhas necessidades e me puxa pra baixo. A vida inteira pensara que difícil era conviver com os outros, mas agora parece que difícil, quase impossível, é conviver comigo mesma.

 

Certa feita, diante de um dos meus ex-namorados, numa das nossas intermináveis brigas pelo cadáver em putrefação que se tornara o nosso relacionamento, eu expus uma longa lista de motivos pelos quais eu gostaria de receber um outro tipo de tratamento, mais amoroso, mais gentil. Pedi para receber mensagens de bom dia e boa noite — pedi para, sabe, ser tratada como gente, pra variar. Disse a ele que, dada a forma com a qual me tratava, por vezes parecia que ele me odiava. A resposta veio como um corte de navalha na carne: “então, se você está com alguém que acredita te odiar, você se odeia em primeiro lugar”. Eu deveria ter terminado com ele naquele dia. Não o fiz, permaneci ali por mais uns dois dias. Ainda me dou créditos por só ter ficado por mais dois dias, apesar de estes viverem em conflito com as minhas constantes punições por ter ficado por mais dois dias.

 

Acontece que isso já tem mais de dois anos.

E hoje, agora, cá estamos de novo.

 

“Eu não acredito que estou neste lugar de novo”, foi o que eu disse em voz alta há duas semanas.

 

Não tenho fórmula pronta, mas acho que perceber o padrão, deixar o sangue escorrer, é o primeiro passo. Não sei se existe uma resposta, não visualizo um meio. Uma amiga me disse que nem tudo a gente muda, algumas coisas a gente só entende que são assim. Por ora, sou ferida aberta, mas teimosa o suficiente para acreditar em mim mesma e permitir que em algum momento da vida o vento sopre a meu favor, sopre tanto que estanque o que hoje sou.

 

Então, finalmente, e agora sim, essa é uma despedida: obrigada por ter ido embora, porque eu não o teria feito. Ao fazê-lo, você me relembrou que o maior e mais duradouro relacionamento que terei será o comigo mesma. Não era amor, era só esse tantão de coisas. Não era exatamente sobre você. A gente não tinha nada a ver, e talvez eu duvide um pouco mais dos astros agora, visto que não há compatibilidade de signos que sobreviva quando algo não é para ser. Quando você dizia que me amava, no fundo eu sabia que não era bem assim — falar de amor não é amar. Mas, eu não teria desistido. Fazendo isso, eu já me desrespeitava o suficiente, porque no fundo eu sabia. No fundo eu sempre soube: não era sobre você, era sobre mim.

 

Eu te disse que meus textos sobre amor vinham sempre parar neste blog; acho que só não te contei que nem todos eles são mesmo de amor.

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