13 de julho de 2017

Tua

Já faz alguns anos, pensei ter te visto no metrô da Barra. As mãos no bolso, passos largos em direção a lugar nenhum. A tua silhueta não esconde o que você foi, eu lembro bem dela. Foi com ela que você foi. Eu me tornei especialista em decorar teus pequenos detalhes. Os olhos verdes cor-de-mato e a barba por fazer, a minha parte favorita. Tua barba me fazia cócegas, e eu costumava rir até meus músculos doerem. Tu roçava ela em mim como se pudesse fazê-lo pelo resto dos teus dias. Como se quisesse que assim fosse. Como se o contato entre os nossos corpos — e somente ele — gerasse uma sinergia necessária para nossa subsistência até o fim. 

Houve um tempo em que eu pensei que a sua sombra andasse atrás de mim, como se fundida na minha. Como se fôssemos um. Dia desses desisti de olhar para trás; tu não estaria mais lá. Muito por minha culpa, muito pelo nosso timing. Nosso timing não foi o certo, é o que repito todos os dias. Não fui eu, não foi tu. Quando você virou as costas e saiu, não fui eu, não foi tu, porque eu e tu não somos mais o que um dia fomos, e o que somos não é o que seremos. É bem verdade que antes de te conhecer eu não pensava assim, assim como é verdade que muitas das minhas verdades tu fez com que caíssem por Terra. Eu passei horas ouvindo tu falar, com paixão, das coisas que tu estudou, leu, pesquisou. Tu falava tanta bobagem, mas falava com tanta vontade, que o timbre da tua voz mudava. Virava timbre de quem canta. 

Mas você não está. Você foi. E eu decorei a tua silhueta.

A mim resta aprender a amar mesmo o amor que não mais está. O amor que está em mim, mas que tu desconhece ou conhece, mas ignora. Não responde, deixa no mudo. Deixa que os dias passem. Deixa que os anos corram. Amar o amor da ausência. Alguns dias, gosto de plantar flores no jardim da varanda de casa. Plantei uma rosa vermelha, sugestão tua. Você sempre gostou do vermelho dos meus lábios. A rosa desabrochou e eu queria te mostrar, mas você não está. Eu, que estou, amo como quem ama o amanhã. Aprecio o amor em mim independente do amor que estava (está? esteve?) em ti. Descobri que a melhor forma de amar é não esperando amor em troca. Dizem que amor sem reciprocidade é sinônimo de sofrimento. A mim parece que as pessoas não sabem amar, não aprenderam ainda. Eu não li um livro a respeito, não me foi ensinado na escola, mas ouvi no timbre da tua voz o som que o amor tem quando é livre.

O amor que sinto por ti está comigo quando tranco a porta do meu quarto para longas horas de prazer autossuficiente; é um amor que alimenta a luxúria. Ele está comigo no bolso da calça quando fecho o zíper e me despeço do cara que conheci no bar; é um amor que predomina sobre o que não pretende ficar. Está comigo quando o desejo não cabe mais, quando a vontade de escapar faz com que as lágrimas deixem o rosto em brasa; é um amor que sobrevive ao caos. O amor que sinto por ti está, como esteve, como estará por algum tempo; é desse jeito que ele voa. Voando, pode ser que um dia ele vá embora, você mesmo me ensinou que tudo passa, que nada é inato, que tudo está e nunca é. Até lá, eu respeito o que sinto. Amor sou, mas o que te dou apenas está. Cuido do que sinto como quem cuida de um animal indefeso. Cuido do que sinto como cuido da rosa vermelha, que foi sugestão tua. Tua que sou. Não, corrijo-me: tua que estou, tua que estive, tua que queria ficar.

2 de julho de 2017

Essa poderia ter o seu nome

o mais louco é
que eu realmente pensei que você ficaria
pra ontem
pra hoje
pensei que você quisesse ficar
acho que me acostumei com a sua ficada
acho que me acostumei com a sua parada
e a sua parada é saber o que dizer
quando eu esqueci até o meu nome
meu endereço
meu tipo sanguíneo
minha rua
meu apreço

mas eu alucino, extrapolo
me desmonto
me desfaço
e o que eu faço
nem te conto

ai de mim se eu disser
que eu meto os pés pelas mãos
desesperadamente
constantemente
por querer muito
por querer tanto
estar sua
estar nua
estar crua
na tua presença
que é a única coisa capaz de
preencher-me
(por enquanto)

talk is cheap, my darling.


Tema base por Maira Gall | Edição por Giuliana Motyczka