30 de junho de 2017

Tá tudo bem, sério

se existe algo que eu aprendi nesta vida, definitivamente foi: independente das minhas intenções, eu vou magoar as pessoas

e, quando isso acontecer, a mim só restará pedir desculpas
e deixar que o tempo passe

nunca, nunca
caberá a mim
ditar como a pessoa deveria se sentir
cogitar que talvez não fosse para tanto
ou dizer a ela que ela não poderia se magoar
só porque eu não queria magoá-la

ao fazê-lo,
no meu individualismo esquizofrênico,
magoarei ainda mais
por tentar anular sentimentos
perfeitamente válidos
só por teimar
em medi-los com a minha régua

— é natural da passagem pela vida isso de machucar e ser machucada, e pedir desculpas é uma das coisas mais honestas e bonitas que alguém pode fazer

(23h50min: resiliência, perdão e tempo, é o que nos resta)


25 de junho de 2017

Vermelho como sangue, verde como folha

Eu costumava pensar que tudo que havia no mundo era a escuridão. 

Tereza, com quem costumo trocar confidências, sempre me diz que o mundo é muito mais do que isso. Ela acorda cedo, faz um café e prepara a mesa. Pergunto a ela qual é a cor do café. Escuro, ela diz, mais escuro que o céu da meia-noite. O céu da meia-noite deve ser azul escuro, o café é marrom, mas não sei ao certo se Tereza consegue diferenciar as cores. Diz-me que largou a escola na sexta série. "Nunca acredite quando te disserem que estudo é o que há de mais importante no mundo", disse. Algumas das pessoas mais estudadas são as que menos sabem da vida. 
Eu sei diferenciar as cores, mesmo sem tê-las visto algum dia. Em sonho, vejo todas. Vejo azul, vermelho, amarelo. Mas a minha preferida é a cor verde. 
Anna diz que verde é uma cor bonita, é a cor de um de seus olhos. O outro é azul, foi o que ela me disse. Quando penso na figura de Anna, penso em uma figura bem diferente. Anna tem os cabelos castanhos, e quando pergunto qual é o tom do castanho, não sabe descrever com precisão. Tem medo de me magoar. Deixa de bobagem e diz logo, eu sempre falo. Castanho como quando falta luz, diz Anna. Castanho como quando falta luz? Castanho como o céu azul da meia-noite? "Não, boba, castanho como quando faz sombra." E sombra, o que é? Sombra é quando falta luz, oras. E a luz, de qual cor é a luz?

Make all of the kids in the choirs sing woo-hoo
Maybe all this is the party
Maybe the tears and the highs we breathe
Maybe all this is the party

Quando fiz 15 anos, tive meu primeiro beijo. O nome do menino era Pedro. Eu gosto do nome Pedro, parece um nome forte. A sonoridade do nome Pedro faz meus ouvidos colocarem meu corpo em estado de alerta, como um comando de um general. E foi exatamente como me senti quando ele falou meu nome pela primeira vez. Curioso como essas coisas funcionam, quando tem que ser. O nome dele fazia meu sangue mandar uma mensagem bem clara por toda a minha extensão, uma espécie de corrente elétrica que costumava fazer com que eu pulsasse freneticamente. "Suas mãos são quentes, seu corpo todo é", disse-me uma vez. Não, não é. Era a sonoridade do nome Pedro. Mas Pedro, eu sempre soube, era um menino. 
Quero te levar para visitar Paris, disse-me Matheus, enquanto eu puxava o zíper do meu próprio vestido, apressando o passo para não perder o compromisso no trabalho. O metrô estaria cheio, e eu teria que correr para chegar a tempo de comprar um café escuro como o céu da meia-noite antes de subir os andares daquele prédio cheio de gente cinza. Não posso visitar Paris, tenho coisas a resolver, tenho amigos esperando por mim na semana que vem. "Não precisa ser na semana que vem, temos todo o tempo do mundo para visitar Paris", respondeu ele, mesmo sabendo, no fundo, que não era verdade. Matheus, diferente de Pedro, não tinha a aparência de um menino, o que não fazia com que ele deixasse de ser um. Meninos tendem a acreditar que têm todo o tempo do mundo, pois é o que aprendem desde cedo. Não há o que temer quando se é invencível. Tereza uma vez me disse que meninos pensam mais com a cabeça de baixo. 
Anna acordou no hospital após mais uma tentativa de suicídio. Quando tínhamos 11 anos, certa vez me disse que o vermelho era a cor do sangue. Sangue é vermelho, eu sei, eu sinto. O vermelho que pulsa em mim, pulsa nela também. Vermelho da cor do sangue. Por algum motivo, o quarto do hospital tem cheiro de vermelho. Pergunto a ela qual é a cor do quarto. Ela diz que é branco. Sombra é quando falta a luz. E a luz, Anna? De qual cor é a luz?

But you're not what you thought you were
But you're not what you thought you were

Não me atrasei para a reunião. É outono, eu sei porque sinto as folhas no chão quando caminho sobre elas. É como caminhar sobre um mar, um mar suave e muito sutil. É um mar que me lembra que estou viva. As folhas secas têm a cor laranja, laranja é a cor do recomeço. As folhas ficam laranja para depois tornarem a serem verdes, disse Tereza, mas não faça mais perguntas. Verde é a minha cor favorita. Prefiro pensar que as folhas verdes são para sempre, e por isso não as sinto. Não consigo senti-las quando estão no chão, mesmo sabendo que estão ali. Só as folhas laranjas fazem barulho quando caminho até o trabalho. Nem sempre ouço barulhos. Às vezes são só uns cachorrinhos passeando com os donos, uns carros impacientes freando no semáforo, buzinas, freios e a fila do banco cheia de gente falando palavras de baixo calão. Isso tudo é cinza, como vejo. Gente cinza por todos os lados.
Conheci Paris sem Matheus. Matheus sumiu, casou-se com uma norueguesa e, da última vez que o encontrei, havia acabado de trazer uma menininha ao mundo. Ruiva, como a mãe. Vermelho da cor do sangue. Anna gostaria de saber. We'll always have Paris. Conheci Paris, fui ao Louvre e atravessei a Pont Neuf umas 3 vezes num mesmo dia. A Torre, não visitei. Manter os pés no chão sempre fora mais a minha praia. Manter o pés no chão é a única forma de saber que estou aqui. Mesmo andar de bicicleta me causa uma certa agonia, não por não saber aonde estou indo, mas por não sentir o chão firme. O vento, o vento eu sinto. Mas o vento eu não sei definir como o concreto do chão. Sinto falta de Anna. Sinto. 

I'm a liability
Liability
Much for me

Ano passado um estranho me parou na rua e pediu-me um abraço. Não soube dizer não. Ele me puxou com a mesma delicadeza de quem mexe pela primeira vez nos objetos de porcelana da avó, sem emitir qualquer som. Soltou-me após cerca de 5 minutos. O tempo é relativo. Você ainda está aí?, eu perguntei. "Eu estou aqui". Não sei por quantos minutos ele continuou no aqui. Sei que deve ter demorado um pouco, pois o calor do corpo dele ainda estava preso no meu. Ainda não sei o nome dele. Mais nada foi dito por mim. Mais nada foi dito por ele. O tempo é relativo. Você ainda está aqui? Eu estou aqui. 
Eu costumava pensar que tudo que havia no mundo era a escuridão. Passava todos os dias assim, afinal. À noite, fechava os olhos e ia dormir, era a minha única oportunidade de sonhar em cores. Branco, vermelho, laranja, verde. Qual é a cor da luz? Quando tem luz, não tem sombra. A sombra é quando tudo fica escuro. Escuro é como eu vejo. No escuro existem monstros, porque monstros não gostam da luz. E a luz, de que cor é a luz? Penso num campo verde, porque sei que verdes são as folhas, na maior parte do tempo, que é relativo. Penso que estou neste campo e que Anna ainda sabe que vermelho é a cor do sangue, que Tereza sabe que o café não é azul e que Pedro não esqueceu a sonoridade do meu nome. Nome é um nome muito bonito. Verde é como eu vejo. E laranja. E branco. E vermelho. É como eu vejo. 
Você ainda está aqui? 

Liability.



Tema base por Maira Gall | Edição por Giuliana Motyczka