7 de agosto de 2017

Self image 2017

Estou com 22 anos, faltam vinte e três dias até que este número mude. Meus cabelos estão cada vez mais finos e escassos, de modo que vez ou outra eu preciso tomar uns complexos vitamínicos para evitar que o medo de ficar careca tome conta de todas as minhas noites mal dormidas. A cor dos meus cabelos é uma no início do mês e outra no final; ainda assim, conviver com essas duas cores tem me dado muita alegria. Não que eu não gostasse do tom anterior, constante, só que gosto bastante desses de agora. 

Tenho uma cicatriz irritante no lado esquerdo do meu nariz, porque aos 18 eu resolvi teimar com os meus pais e colocar piercing. Todos os dias eu aprendo um pouco mais que, em grande parte dos casos, os meus pais têm razão — entretanto, eu acho que não direi isso a eles tão cedo. 

Gosto cada vez mais da minha personalidade. Ela não é fácil, verdade. Minha mãe certa vez disse que eu sou um furacão. Posso ser, embora isso não seja o que eu sou estaticamente. Existem dias em que eu não sinto vontade de sair do meu quarto, da mesma forma que existem aqueles outros em que eu quero me colocar para o mundo, para todos me verem, me ouvirem e me perceberem. Existem dias e dias. Todos eles são válidos. Olhar para as experiências, todas elas, como neutras e válidas tem sido uma jornada nova na qual decidi embarcar há alguns meses. Nada é essencialmente bom. Nada é essencialmente ruim. Tudo é — inclusive eu — de acordo com as circunstâncias, nas mais diversas esferas. Compreender a premissa de que todas as experiências são processos de aprendizado, respeitando a mim mesma e ao outro, e deixando de sentir raiva para dar lugar ao perdão e à tranquilidade, aceitando tudo o que acontecer, como acontecer, tem feito com que eu mude toda a minha forma de encarar o mundo.

Minha alimentação caminha de mãos dadas com o meu momento atual: não consigo mais comer carne, o cheiro me causa ânsia, e ando em direção a uma dieta vegana. A passos lentos e graduais, é verdade. O leite de soja ainda me parece estranho. Descobri que sou uma amante da couve-flor, que o brócolis não é tão ruim e que a berinjela consegue proporcionar receitas muito gostosas. Aprendi a amar acordar cedo e ir à feira comprar produtos orgânicos que eu mesma aprendi a escolher. Gosto de saber que nada mais coloco em mim que vá literalmente apodrecer por longas horas; gosto, em outras palavras, de saber que meu corpo não é mais um cemitério. Gosto da noção, ainda que talvez ingênua, que tenho contribuído cada vez menos para a dominação mundial de uma indústria que se alimenta de sofrimento animal, poluição planetária, destruição e corrupção. Sou sozinha, mas sou. Estou.

E por falar em estar, sinto-me mais confortável com o meu corpo do que jamais senti antes. Ganhei alguns muitos quilos nos últimos dois anos, dos quais perdi metade desde o começo deste ano, mas ainda assim sinto-me em paz com a imagem externa que tenho. Gosto da minha cintura e do molde do meu corpo. Gosto das minhas pernas que um dia demonizei. Gosto do meu quadril, gosto da minha bunda. Até da quase completa ausência de seios eu aprendi a gostar. Aprendo cada vez mais que cada parte do meu corpo existe por algum motivo, e descobri-los é uma experiência boa. As panturrilhas ainda são um incômodo. Mas nada paralizante, não mais, pelo contrário. Tenho adorado ir correr na praia, ver gente, ouvir as ondas por alguns minutos e sentir o vento no meu rosto. Todo o resto parece pequeno — e é.

Consigo distinguir com mais clareza os meus objetivos, apesar de ter momentos em que eu sinta que nada faz sentido e que talvez eu devesse apenas largar tudo e me mudar para algum interior, criar uns animais e viver disso. A pressão que eu mesma coloco em mim me incomoda muito mais do que qualquer pressão exterior. Tenho algumas coisas em mente. Trabalho com a possibilidade delas e só. Tenho ao meu lado pessoas incríveis, mas não mais tão numerosas quanto outrora. Não que as pessoas tenham me abandonado, eu que talvez não as considere mais tão incríveis. Talvez seja o momento atual. Talvez seja o fato de que a pessoa que eu sou não se encaixa mais com elas. Talvez seja esse o curso natural da vida. E, como já disse antes, eu aceito. 

(Sinto que poderia continuar este texto depois... Pode ser que o faça)

13 de julho de 2017

Tua

Já faz alguns anos, pensei ter te visto no metrô da Barra. As mãos no bolso, passos largos em direção a lugar nenhum. A tua silhueta não esconde o que você foi, eu lembro bem dela. Foi com ela que você foi. Eu me tornei especialista em decorar teus pequenos detalhes. Os olhos verdes cor-de-mato e a barba por fazer, a minha parte favorita. Tua barba me fazia cócegas, e eu costumava rir até meus músculos doerem. Tu roçava ela em mim como se pudesse fazê-lo pelo resto dos teus dias. Como se quisesse que assim fosse. Como se o contato entre os nossos corpos — e somente ele — gerasse uma sinergia necessária para nossa subsistência até o fim. 

Houve um tempo em que eu pensei que a sua sombra andasse atrás de mim, como se fundida na minha. Como se fôssemos um. Dia desses desisti de olhar para trás; tu não estaria mais lá. Muito por minha culpa, muito pelo nosso timing. Nosso timing não foi o certo, é o que repito todos os dias. Não fui eu, não foi tu. Quando você virou as costas e saiu, não fui eu, não foi tu, porque eu e tu não somos mais o que um dia fomos, e o que somos não é o que seremos. É bem verdade que antes de te conhecer eu não pensava assim, assim como é verdade que muitas das minhas verdades tu fez com que caíssem por Terra. Eu passei horas ouvindo tu falar, com paixão, das coisas que tu estudou, leu, pesquisou. Tu falava tanta bobagem, mas falava com tanta vontade, que o timbre da tua voz mudava. Virava timbre de quem canta. 

Mas você não está. Você foi. E eu decorei a tua silhueta.

A mim resta aprender a amar mesmo o amor que não mais está. O amor que está em mim, mas que tu desconhece ou conhece, mas ignora. Não responde, deixa no mudo. Deixa que os dias passem. Deixa que os anos corram. Amar o amor da ausência. Alguns dias, gosto de plantar flores no jardim da varanda de casa. Plantei uma rosa vermelha, sugestão tua. Você sempre gostou do vermelho dos meus lábios. A rosa desabrochou e eu queria te mostrar, mas você não está. Eu, que estou, amo como quem ama o amanhã. Aprecio o amor em mim independente do amor que estava (está? esteve?) em ti. Descobri que a melhor forma de amar é não esperando amor em troca. Dizem que amor sem reciprocidade é sinônimo de sofrimento. A mim parece que as pessoas não sabem amar, não aprenderam ainda. Eu não li um livro a respeito, não me foi ensinado na escola, mas ouvi no timbre da tua voz o som que o amor tem quando é livre.

O amor que sinto por ti está comigo quando tranco a porta do meu quarto para longas horas de prazer autossuficiente; é um amor que alimenta a luxúria. Ele está comigo no bolso da calça quando fecho o zíper e me despeço do cara que conheci no bar; é um amor que predomina sobre o que não pretende ficar. Está comigo quando o desejo não cabe mais, quando a vontade de escapar faz com que as lágrimas deixem o rosto em brasa; é um amor que sobrevive ao caos. O amor que sinto por ti está, como esteve, como estará por algum tempo; é desse jeito que ele voa. Voando, pode ser que um dia ele vá embora, você mesmo me ensinou que tudo passa, que nada é inato, que tudo está e nunca é. Até lá, eu respeito o que sinto. Amor sou, mas o que te dou apenas está. Cuido do que sinto como quem cuida de um animal indefeso. Cuido do que sinto como cuido da rosa vermelha, que foi sugestão tua. Tua que sou. Não, corrijo-me: tua que estou, tua que estive, tua que queria ficar.

2 de julho de 2017

Essa poderia ter o seu nome

o mais louco é
que eu realmente pensei que você ficaria
pra ontem
pra hoje
pensei que você quisesse ficar
acho que me acostumei com a sua ficada
acho que me acostumei com a sua parada
e a sua parada é saber o que dizer
quando eu esqueci até o meu nome
meu endereço
meu tipo sanguíneo
minha rua
meu apreço

mas eu alucino, extrapolo
me desmonto
me desfaço
e o que eu faço
nem te conto

ai de mim se eu disser
que eu meto os pés pelas mãos
desesperadamente
constantemente
por querer muito
por querer tanto
estar sua
estar nua
estar crua
na tua presença
que é a única coisa capaz de
preencher-me
(por enquanto)

talk is cheap, my darling.


30 de junho de 2017

Tá tudo bem, sério

se existe algo que eu aprendi nesta vida, definitivamente foi: independente das minhas intenções, eu vou magoar as pessoas

e, quando isso acontecer, a mim só restará pedir desculpas
e deixar que o tempo passe

nunca, nunca
caberá a mim
ditar como a pessoa deveria se sentir
cogitar que talvez não fosse para tanto
ou dizer a ela que ela não poderia se magoar
só porque eu não queria magoá-la

ao fazê-lo,
no meu individualismo esquizofrênico,
magoarei ainda mais
por tentar anular sentimentos
perfeitamente válidos
só por teimar
em medi-los com a minha régua

— é natural da passagem pela vida isso de machucar e ser machucada, e pedir desculpas é uma das coisas mais honestas e bonitas que alguém pode fazer

(23h50min: resiliência, perdão e tempo, é o que nos resta)


25 de junho de 2017

Vermelho como sangue, verde como folha

Eu costumava pensar que tudo que havia no mundo era a escuridão. 

Tereza, com quem costumo trocar confidências, sempre me diz que o mundo é muito mais do que isso. Ela acorda cedo, faz um café e prepara a mesa. Pergunto a ela qual é a cor do café. Escuro, ela diz, mais escuro que o céu da meia-noite. O céu da meia-noite deve ser azul escuro, o café é marrom, mas não sei ao certo se Tereza consegue diferenciar as cores. Diz-me que largou a escola na sexta série. "Nunca acredite quando te disserem que estudo é o que há de mais importante no mundo", disse. Algumas das pessoas mais estudadas são as que menos sabem da vida. 
Eu sei diferenciar as cores, mesmo sem tê-las visto algum dia. Em sonho, vejo todas. Vejo azul, vermelho, amarelo. Mas a minha preferida é a cor verde. 
Anna diz que verde é uma cor bonita, é a cor de um de seus olhos. O outro é azul, foi o que ela me disse. Quando penso na figura de Anna, penso em uma figura bem diferente. Anna tem os cabelos castanhos, e quando pergunto qual é o tom do castanho, não sabe descrever com precisão. Tem medo de me magoar. Deixa de bobagem e diz logo, eu sempre falo. Castanho como quando falta luz, diz Anna. Castanho como quando falta luz? Castanho como o céu azul da meia-noite? "Não, boba, castanho como quando faz sombra." E sombra, o que é? Sombra é quando falta luz, oras. E a luz, de qual cor é a luz?

Make all of the kids in the choirs sing woo-hoo
Maybe all this is the party
Maybe the tears and the highs we breathe
Maybe all this is the party

Quando fiz 15 anos, tive meu primeiro beijo. O nome do menino era Pedro. Eu gosto do nome Pedro, parece um nome forte. A sonoridade do nome Pedro faz meus ouvidos colocarem meu corpo em estado de alerta, como um comando de um general. E foi exatamente como me senti quando ele falou meu nome pela primeira vez. Curioso como essas coisas funcionam, quando tem que ser. O nome dele fazia meu sangue mandar uma mensagem bem clara por toda a minha extensão, uma espécie de corrente elétrica que costumava fazer com que eu pulsasse freneticamente. "Suas mãos são quentes, seu corpo todo é", disse-me uma vez. Não, não é. Era a sonoridade do nome Pedro. Mas Pedro, eu sempre soube, era um menino. 
Quero te levar para visitar Paris, disse-me Matheus, enquanto eu puxava o zíper do meu próprio vestido, apressando o passo para não perder o compromisso no trabalho. O metrô estaria cheio, e eu teria que correr para chegar a tempo de comprar um café escuro como o céu da meia-noite antes de subir os andares daquele prédio cheio de gente cinza. Não posso visitar Paris, tenho coisas a resolver, tenho amigos esperando por mim na semana que vem. "Não precisa ser na semana que vem, temos todo o tempo do mundo para visitar Paris", respondeu ele, mesmo sabendo, no fundo, que não era verdade. Matheus, diferente de Pedro, não tinha a aparência de um menino, o que não fazia com que ele deixasse de ser um. Meninos tendem a acreditar que têm todo o tempo do mundo, pois é o que aprendem desde cedo. Não há o que temer quando se é invencível. Tereza uma vez me disse que meninos pensam mais com a cabeça de baixo. 
Anna acordou no hospital após mais uma tentativa de suicídio. Quando tínhamos 11 anos, certa vez me disse que o vermelho era a cor do sangue. Sangue é vermelho, eu sei, eu sinto. O vermelho que pulsa em mim, pulsa nela também. Vermelho da cor do sangue. Por algum motivo, o quarto do hospital tem cheiro de vermelho. Pergunto a ela qual é a cor do quarto. Ela diz que é branco. Sombra é quando falta a luz. E a luz, Anna? De qual cor é a luz?

But you're not what you thought you were
But you're not what you thought you were

Não me atrasei para a reunião. É outono, eu sei porque sinto as folhas no chão quando caminho sobre elas. É como caminhar sobre um mar, um mar suave e muito sutil. É um mar que me lembra que estou viva. As folhas secas têm a cor laranja, laranja é a cor do recomeço. As folhas ficam laranja para depois tornarem a serem verdes, disse Tereza, mas não faça mais perguntas. Verde é a minha cor favorita. Prefiro pensar que as folhas verdes são para sempre, e por isso não as sinto. Não consigo senti-las quando estão no chão, mesmo sabendo que estão ali. Só as folhas laranjas fazem barulho quando caminho até o trabalho. Nem sempre ouço barulhos. Às vezes são só uns cachorrinhos passeando com os donos, uns carros impacientes freando no semáforo, buzinas, freios e a fila do banco cheia de gente falando palavras de baixo calão. Isso tudo é cinza, como vejo. Gente cinza por todos os lados.
Conheci Paris sem Matheus. Matheus sumiu, casou-se com uma norueguesa e, da última vez que o encontrei, havia acabado de trazer uma menininha ao mundo. Ruiva, como a mãe. Vermelho da cor do sangue. Anna gostaria de saber. We'll always have Paris. Conheci Paris, fui ao Louvre e atravessei a Pont Neuf umas 3 vezes num mesmo dia. A Torre, não visitei. Manter os pés no chão sempre fora mais a minha praia. Manter o pés no chão é a única forma de saber que estou aqui. Mesmo andar de bicicleta me causa uma certa agonia, não por não saber aonde estou indo, mas por não sentir o chão firme. O vento, o vento eu sinto. Mas o vento eu não sei definir como o concreto do chão. Sinto falta de Anna. Sinto. 

I'm a liability
Liability
Much for me

Ano passado um estranho me parou na rua e pediu-me um abraço. Não soube dizer não. Ele me puxou com a mesma delicadeza de quem mexe pela primeira vez nos objetos de porcelana da avó, sem emitir qualquer som. Soltou-me após cerca de 5 minutos. O tempo é relativo. Você ainda está aí?, eu perguntei. "Eu estou aqui". Não sei por quantos minutos ele continuou no aqui. Sei que deve ter demorado um pouco, pois o calor do corpo dele ainda estava preso no meu. Ainda não sei o nome dele. Mais nada foi dito por mim. Mais nada foi dito por ele. O tempo é relativo. Você ainda está aqui? Eu estou aqui. 
Eu costumava pensar que tudo que havia no mundo era a escuridão. Passava todos os dias assim, afinal. À noite, fechava os olhos e ia dormir, era a minha única oportunidade de sonhar em cores. Branco, vermelho, laranja, verde. Qual é a cor da luz? Quando tem luz, não tem sombra. A sombra é quando tudo fica escuro. Escuro é como eu vejo. No escuro existem monstros, porque monstros não gostam da luz. E a luz, de que cor é a luz? Penso num campo verde, porque sei que verdes são as folhas, na maior parte do tempo, que é relativo. Penso que estou neste campo e que Anna ainda sabe que vermelho é a cor do sangue, que Tereza sabe que o café não é azul e que Pedro não esqueceu a sonoridade do meu nome. Nome é um nome muito bonito. Verde é como eu vejo. E laranja. E branco. E vermelho. É como eu vejo. 
Você ainda está aqui? 

Liability.



9 de fevereiro de 2017

Um, dois, três...

Vitória, sexta-feira, 10 de fevereiro. São 3:22 da manhã. Perdoe, desde já, as minhas lamentações infundadas. Eu sei, não é pra tanto. Eu sei, nem tá tão ruim. Eu sei, o Exército tá nas ruas — passou um carro aqui; eu consigo sentir o vento, mas não sinto frio. Minha pele está em brasa. Já tem uns dias que não durmo direito. Cinco ou seis, acho que perdi as contas. As noites mais longas chegaram por aqui e cada novo dia parece um presente que enviaram sei lá de onde, sem embrulho e daqueles que a gente deixa no cantinho, sem mexer. Não tem cor, não tem luz, só tem o nada. Um quarto cheio de um vazio preenchido pelo nada. As horas se arrastam, tic toc tic toc, e nenhum piu lá fora, tic toc tic toc. Silêncio. Escuridão. A gente deixa pra lá, né? Vai deixando pra depois. Depois a gente se vê, a gente vai se falando, vamos escolher o lugar, a hora, vai me avisando. Hoje? Hoje não dá, não, tenho que resolver umas coisas. Amanhã tem jogo, também não dá. Semana que vem, com certeza. É estranho observar, agora, tudo que eu já deveria ter feito e adiei. Tem um gosto amargo, como um remédio que demora demais pra descer pela garganta. Às vezes, nem desce; fica ali mesmo, travando tudo. Amargo pra mim, ceifador para quem tem o futuro adiado para nunca, morre nas mãos de quem não tem nome ou rosto, morre e passa a ser só mais um dígito na lista oficial.  Eu tô quase me formando, tenho 22 anos, deveria ter algumas certezas nessa vida, mas eu não sei de nada. Eu nunca soube de nada. Eu olho em volta, vejo as paredes do meu quarto, vejo a segurança dos meus privilégios, as pequenezas das coisas que valorizo além da conta, e percebo o quão miúda e impotente sou. Sempre me disseram que eu era forte, alguns me pediram a fórmula. A verdade é que eu vivo desmontando. Desmonto uma, duas, três vezes por dia. O tempo todo. Desmonto atravessando a rua, desmonto passando direto pelo cara dormindo na calçada ao lado dos Correios, desmonto a cada página de jornal sem cor, desmonto quando ouço ódio fantasiado de boa intenção, desmonto a cada briga de ego de quem sabe mais contra quem sabe as respostas até das próprias dúvidas; desmonto quando me refaço, pedacinho por pedacinho. Por vezes, engulo o choro, finjo que nem vi, passo um café; ou digo que vi e grito pro mundo inteiro que vi, que vi sim, que estava ali e não estava certo, que estava longe de ser certo. Não há meio termo: ou guardo pra mim ou quero explodir e quero que o mundo venha junto. Eu quero explodir e quero que explodam comigo. Eu quero explodir e quero que explodam comigo. EU QUERO EXPLODIR E QUERO QUE EXPLODAM COMIGO. E ninguém explode. Ninguém nota. Ninguém vê. Ninguém diz. Morreu mais um, você ficou sabendo? Sim, fiquei. Um absurdo. Pois é, menina, um absurdo. Esse governador é um ditador. É um ditador mesmo, de fato. Semana que vem tem caminhada pela paz, vou de branco. Beleza, vou contigo, passa lá em casa e vamos de bike. Ei, isso não está certo, isso tá errado. Isso não faz sentido. Você não vê? Não se lembra? É 2017 e pode ser que a noite volte a ser regra. Não, não dá. Você não vê? Eu quero explodir e quero que explodam comigo. Mas daqui a uns dias tem Carnaval. Tem Carnaval, vou de sereia, vou jogar glitter na cara e beber muita vodka. Eu só quero poder ir à padaria, daqui a uns dias tem Carnaval. Eu só quero poder ir à academia, daqui a uns dias tem Carnaval. Tem Carnaval, cara, eu vou Incrível Hulk. Incrível, eu não vou, não. Eu não sei se vai ter acabado — e, se acabar, vai acabar de fato? Acabar pra quem? Acabar pra quando? Acabar pra onde? Eu não sei, não. Eu quero explodir e quero que explodam comigo. Eu só quero explodir. Agora. Não daqui a pouco, não semana que vem, não daqui a um mês. Minha pele está em brasa, e faz frio lá fora. Eu não sei preencher o nada. Eu queria saber, Deus, como eu queria saber. Como eu queria ser forte para os que não têm voz sequer para sussurrar. Como eu queria ser grito que preenche o nada. Como eu queria não ser pequena e não ter tanto medo. Mas o medo que tenho é o medo que me faz explodir. É o medo que me faz chorar. Também é o medo que me faz erguer o punho contra tudo que sei que não está certo. Esse mesmo medo corrói o meu peito, que pulsa, que pula, que para e repara que eu sempre fui luta, que eu continuo sendo luta, que muita gente ainda é luta e que é em frente que se caminha. É resistindo que se (r)existe. É explodindo que se refaz. Eu quero explodir e quero que explodam comigo. Agora.


Tema base por Maira Gall | Edição por Giuliana Motyczka