16 de junho de 2016

Notícias de uma guerra particular

O título desse post nada tem a ver com o documentário com o mesmo nome. Resolvi pegar o título pra mim, porque hoje tive um dia não-tão-legal e ouvi meu pai falando sobre tal documentário. Achei pertinente e peguei pra mim. Farei-me entender.

Fui uma adolescente depressiva. Tive bons dias e maus dias. Alguns piores do que simplesmente maus. Alguns insuportáveis, tão insuportáveis que culminaram em tentativas de suicídio — e esses dias foram tantos, que chegou um momento em que perdi as contas. 

Entrei na faculdade e as coisas pareceram melhorar. Lá pelo quarto período, contudo, no final de 2014, pra ser mais exata, tive outra crise e, mais uma vez, vontade de acabar com tudo. As cicatrizes no meu corpo já são tantas, que também perdi as contas. Não consigo mais contar. Algumas jamais irão sumir, já fazem parte de mim e da minha identidade. Em 2014, nasceu mais uma. Meu irmão, porém, cansado de não saber mais como lidar com tudo isso — talvez tão cansado quanto eu — foi até a minha varanda, lugar em que eu adorava me isolar pra chorar até sentir vontade de dormir, me abraçou e disse que iria me ajudar a cuidar de mim mesma.

Meu irmão iria me ajudar. Eu aceitei a ajuda. Na semana seguinte, fomos visitar uma psiquiatra. Ela foi muito querida quando eu contei a ela sobre todos os episódios e sobre dias sim, dias não, sentir vontade de sair da minha cama. E aí veio o diagnóstico: Transtorno de personalidade limítrofe ou Transtorno de Personalidade Borderline. 

Sempre gostei de Garota, Interrompida e, do nada, aos 20 anos, me tornei Susanna. Comecei a ler e estudar sobre a minha doença, buscando saber mais sobre mim mesma. Ela atinge 2% da população mundial e consiste basicamente em instabilidade emocional, em insegurança quanto a ficar sozinha, em dificuldades para manter vínculos sociais, autodepreciação e automutilação, etc. Mas isso não é todo mundo? É o que eu vivo me perguntando.

Comecei também a tomar um medicamento e logo tudo isso me causou inúmeras dores de cabeça. Tratar um transtorno mental não é barato: tem remédio, psiquiatra e psicóloga; o combo inteiro não sai por menos de R$ 1.000,00 por mês. Hoje, não tomo mais remédios, mas muito provavelmente precisarei ficar em terapia pelo resto da minha vida; e que sorte a minha poder fazê-lo. 

Depois eu percebi que ao ler sobre a minha doença na vontade de me conhecer não faria com que eu, de fato, me conhecesse. Eu não sou a minha doença. Sou muito mais do que ela. 

Mas nem sempre é fácil diferenciar.

Conviver com um diagnóstico de transtorno mental é não saber compreender a própria mente; é duvidar dos próprios sentimentos e pensamentos, questionando, o tempo inteiro, se tal coisa existe por algum motivo paupável ou é apenas mais um truque da sua própria cabeça, em mais uma tentativa de te sabotar; é ir dormir com vontade de não mais acordar, e acordar no outro dia sem vontade de sair da cama; é colocar as amizades e os vínculos sociais constantemente em cheque, porque, ao mesmo tempo em que você tenta entender que ninguém é obrigado a lidar com o seu diagnóstico, suas mudanças de humor, suas crises depressivas e nervosas, você também implora, internamente ou não, com todas as forças, pra que as pessoas fiquem, não desistam, não fujam — e quando elas fogem, você sofre, mas entende, e se culpa; é nem sempre conseguir lidar com as obrigações do cotidiano, porque, oras, existem momentos em que tudo em você pede para que você não se coloque em situações que exijam mais do que você é capaz de dar. 

Conviver com um diagnóstico é entender que você muito provavelmente nunca vai entender as coisas direito, principalmente no que se trata de si mesma. 

Passei o dia inteiro com raiva de mim, com raiva do meu corpo, de cada detalhe da minha personalidade. Passei o dia inteiro deitada na cama olhando o tempo passar, enquanto deveria estar estudando. Tem dias em que levantar da cama é a batalha mais difícil de todas — e só eu sou capaz de descrever o quão difícil é ser obrigada a me forçar a fazê-lo, em nome das obrigações sociais. Tenho total certeza de que meus pais não seriam contrários a uma possível decisão de trancar o curso e, ainda assim, sei que eu mesma não saberia lidar com essa decisão, porque me colocaria na posição de perdedora. Tomar decisões com a mente me sabotando não é fácil. 

Mas, eu não sou o meu diagnóstico. Eu não sou o meu diagnóstico. Repito a mim mesma todos os dias sempre que acordo, por pior que seja: eu não sou o meu diagnóstico. Eu sou muito mais que ele, apesar de existirem momentos em que ele fala tão alto na minha cabeça que eu mal consigo ouvir meus próprios pensamentos. Eu não sou o meu diagnóstico nem ele é a minha personalidade, porque ela existia e sempre existiu antes dele. Eu não sou o meu diagnóstico e ele pode ir embora amanhã. Eu não sou o meu diagnóstico e não permito que ele destrua o que eu sou. 

Hoje foi um dia ruim. 

Mas amanhã vai ser outro dia. 


Tema base por Maira Gall | Edição por Giuliana Motyczka