3 de abril de 2016

Jogue as bagagens no chão e não peça desculpas

Ando muito, muito cansada. No nível: tão-cansada-que-mal-consigo-saber-os-motivos-porque-não-tenho-tempo-para-tal. Mas é um cansaço que me faz sentir muito, sentir tudo, e entre umas crises de asma e uns choros aqui e ali, algumas reflexões aparecem. Daí eu resolvi escrever sobre elas. 

Estar cansada e precisar seguir com a vida, porque ela não para, é como funcionar no automático. A gente fica sem saber muito bem o que está acontecendo, mas também não consegue sentar e formular pensamentos coerentes buscando uma resposta. E quando a gente tem todo um histórico de depressão e parafusos nem sempre bem posicionados na mente, as coisas podem ficar ainda mais perigosas. Alguns dias, a gente acorda e não sente vontade de levantar da cama. Ainda assim, sabe que é cilada, tem noção de que ficar ali é abrir uma porta para possíveis retornos de episódios ruins, então se força a sair mesmo assim.


A gente segue com a vida, deixando pra lidar com as coisas não-lidáveis sempre depois. Sempre amanhã. Sempre daqui a uma hora, um mês, quem sabe. E um dia parece que tudo vem à tona, como numa caixinha localizada no lado esquerdo do peito que, após um certo tempo, não suporta mais nada e qualquer pequena coisa funciona como um estopim. Sai tudo, de repente. Não é que o novo habitante da caixinha seja enorme; às vezes, ele é menor que uma formiga. Mas a caixinha não suporta nem mais uma formiguinha.

Depois de alguns anos me forçando a suportar certas coisas, aprendi que nem tudo é lidável e tudo bem. Aprendi que, às vezes, eu não preciso ficar numa situação que me magoa e tudo bem. Aprendi que posso e devo me colocar em primeiro plano e que, por mais que eu busque com todas as minhas forças não magoar ninguém, às vezes isso invariavelmente acontece; nestes casos, eu posso pedir desculpas e, se a pessoa não aceitar, não há nada que eu possa fazer também; ser humana é aceitar que posso, a qualquer momento, magoar alguém e não posso sempre esperar que a pessoa aceite minhas desculpas e volte ao que era antes; não posso me condenar por ser humana e errar, assim como não posso condenar a outra pessoa por ter sentimentos.

Por outro lado, aprendi que nem sempre eu DEVO pedir desculpas. Vez ou outra, pode ser que eu não seja culpada; pode ser que não me interesse buscar culpados; pode ser que eu esteja tão somente colocando minha saúde mental em primeiro plano e, em minha condição humana demasiadamente humana, não me importando com as consequências. Nem sempre as consequências serão de minha responsabilidade. Se eu tenho que lidar com as minhas emoções e os meus sentimentos, as pessoas também precisam fazer o mesmo — e isso é problema delas, não meu.

Tudo bem largar o emprego que te faz mal, quando você puder fazer isso. Saber que tem gente procurando emprego não anula a negatividade que seu emprego atual está te causando. Não se culpe por ter o privilégio de poder largar o seu emprego; aproveite-o e peça demissão amanhã. O discurso do "ame o que você tem, pois tem gente numa situação pior" não pode e não deve servir para te fazer aceitar coisas que não te fazem bem. A grama escura do vizinho não torna a sua mais verde, e por mais triste que isso pareça, ninguém realmente se importa se você sair do seu emprego.

Tudo bem sair de uma relação tóxica. Eu sei que a gente tem medo de tudo que é novo, sei que por vezes a gente insiste em algo que nos faz mal tão somente por temer não se adaptar à vida sem tal coisa, mas, eu juro: é sempre muito mais justo colocar-se em primeiro plano do que valorizar uma situação que te faz mal por medo do desconhecido.


Are the details in the fabric?
Are the things that make you panic?

Are your thoughts results of static cling? 
Are the things that make you blow?
Hell, no reason, go on and scream...

Qual a finalidade desse texto? Eu não sei, não sei mesmo. Eu só tinha algumas coisas a dizer e talvez tenha ficado meio sem sentido, meio frases desconexas que não chegam a lugar nenhum. Mas tudo bem. Acho que é isso: é sobre tudo bem e sobre não pedir desculpas. Tudo bem não estar bem e tudo bem não pedir desculpas por isso. A gente precisa aprender a não pedir desculpas por sermos humanos, por errarmos, por colocar em primeiro plano a nossa própria sanidade. A gente precisa parar de pedir desculpas para fazer bem ao outro em detrimento de nós mesmos. A gente precisa parar de pedir desculpas por nem sempre estar bem. 

E tudo bem. 

Um comentário

  1. Eu me sentia culpada toda vez que precisava dizer "não" para um namorado que tive. Ficava lembrando das pessoas dizendo que ele era "uma boa pessoa", um rapaz educado, atencioso e que seria difícil eu encontrar outro assim. Ele realmente era uma boa pessoa, mas a convivência me mostrou que ele também era uma pessoa egoísta. E de tanto ficar me sentindo culpada e fazendo coisas que eu detestava só para agradá-lo, fui ficando estressada, ansiosa, doente... Até que saí fora do relacionamento e não me culpei se ele ficou com raiva ou não. Pensei apenas em mim, na minha saúde, no meu amor-próprio, nas vezes que eu devia ter pedido desculpa para mim mesma por estar num relacionamento tão sufocante.

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Tema base por Maira Gall | Edição por Giuliana Motyczka