1 de fevereiro de 2016

A vida pode ser um açaí com leite em pó e leite condensado

Ou: o que ficou de janeiro, o famigerado primeiro mês de 2016

Fiquei encarando a tela por alguns minutos até pensar em como contaria algum apanhadão geral de janeiro, meio sem saber sequer o título. Mas ele veio e pareceu um sopro no meu ouvido. 

No finalzinho de dezembro (dia 30), viajei para uma vila de praia com alguns amigos. Alugamos uma casa lá em meados de 2015 e passamos metade do ano inteiro planejando tudo, desde compras de supermercado até ventiladores que seriam levados. Mas como eu sou a mestra do Na Hora Marco, Depois Prefiro Minha Cama™, cerca de duas semanas antes, estava eu caçando mil e um motivos pelos quais eu não deveria ir pra Itaúnas (este é o nome da vila, aliás): perguntei como era a casa, recebi uma foto e quase infartei ao ver que a casa não tinha grade/cerca/seja-lá-como-se-chame-isso-aí (e não houve "mas, relaxa, a vila é bem simples e todas as casas são assim mesmo" que me fizesse surtar menos); passei, então, a sair fazendo uma pesquisa de campo (nisso, devo ter perguntado para aproximadamente 10 pessoas coisas como: 1 - Mas como é lá? 2 - O que tem de legal pra fazer? 3 - A praia tem quiosques? 4 - À noite, o que vocês fazem? 5 - Onde fica a farmácia na vila?, chegando até a patética: "No meu lugar, você estaria animada pra ir?", como que torcendo pra que a resposta criasse em mim uma animação que eu não conseguia sentir sozinha); ainda frustrada e desesperada demais para pensar direito, passei as coordenadas da casa pro meu pai, e, pai que é pai entra na doideira junto (até incentiva-a!), então no segundo seguinte, Júlio, O Pai, estava procurando algum colega policial por lá — e eu tenho certeza de que até hoje esse tal colega sabe meu CPF, meu tipo sanguíneo, o meu apelido de infância, etc.; apenas porque vai que, né?

Tentei me sabotar por uns dias mais. Aí cheguei na fase da aceitação: vou, vai ser legal e, de qualquer forma, vai acabar rapidinho, não dá nem uma semana. Saí para comprar um biquíni e uns shorts jeans — e essa parte exigiu um esforço de outro mundo pra continuar na vibe vou-vai-ser-legal-e-acaba-rápido, porque autoaceitação não trabalhamos desde nunca, apesar de falar tanto sobre ela e sua importância (volte mais tarde, porque aqui o lema é: faça o que eu falo, nunca o que eu faço). Quando o dia finalmente chegou, eu fiquei chorando de nervosismo e, às 3 da manhã, acordei a minha mãe, em uma crise de pânico (é sério isso), aos prantos, dizendo que algo dentro de mim me avisava pra eu não ir. Eu sigo muito a minha intuição e eu realmente achei que algo estava me dizendo pra deixar aquela coisa toda de lado. Eu pago tudo, mãe, reembolso vocês, mas, por favor, ME DIGA QUE TUDO BEM SE EU NÃO FOR MAIS!, eu disse, mais uma vez esperando que a resposta da pessoa com quem eu estava falando fosse me dar algum tipo de conforto. Mamãe pegou a minha mão, ainda com os olhinhos cheios de um sono interrompido, e disse: Filha, vá. Divirta-se. Vai ficar tudo certo. Se detestar, liga pra gente e nós vamos na hora te buscar. 

Apesar de achar sacanagem fazer meus pais viajarem por 4 horas apenas pra me buscar, porque eu, de forma mimadíssima, não estava sabendo lidar com nada™, aceitei. Eu sei que muito provavelmente nunca pediria pra eles irem, então era uma decisão meio fajuta, mas aceitei mesmo assim. Mãe é mãe. Mãe sabe das coisas, todo mundo sempre disse isso.

Daí ok, acelera pra parte em que, depois de 4 horas de viagem, chegamos à vila e fomos recepcionados por um cara com um facão preso na calça jeans, única vestimenta que ele estava usando. Ele entrou na frente da nossa van e fez sinal para pararmos. Meu coração acelerou, meu corpo inteiro ficou paralisado da cabeça aos pés na hora, e eu não sei nem o que mais eu fiz além de olhar pros meus amigos em pânico, meio que perguntando, com os olhos, se eles estavam vendo o mesmo que eu. Pensei: É isso, bonita, bem feito, é isso que acontece quando você não ouve à própria intuição: VOCÊ MORRE. 


Surtei um pouco e fiz todo mundo surtar junto, apenas para descobrir depois que o cara na verdade estava reivindicando um direito da comunidade que pedia há anos por um quebra molas pra evitar acidentes. O medo se transformou em, como disse meu pai, numa tentativa muito inovadora™ de me acalmar, uma aula particular de sociologia e Direito no concreto, seja lá o que isso queira dizer. 

No final das contas, Itaúnas não era muito diferente do que eu esperava (depois de ter feito aquela longa pesquisa de campo): muitas drogas, muita galera legalize, praia, dunas de areia, bebida o dia inteiro e reggae. Eu sei, não parece comigo. Não parece mesmo. Eu não bebo, não uso drogas, detesto (ou costumava detestar, até os 19 ou 20 anos) praia e areia. E não tem como detestar essas coisas em Itaúnas, onde tem areia até embaixo da sua cama, se você olhar bem. Eu aceitei entrar nesse barco porque tudo que faço com as minhas amigas acaba sendo legal ou, ao menos, história pra contar. Essa viagem virou história legal pra contar, porque serviu de aprendizado.  

E todo o resto do mês é história de como eu lidei com toda essa novela do meu final de 2015, basicamente.

Por que o título?, vocês perguntam. Em Itaúnas, eu tomei açaí pela primeira vez. Mas, assim, esculhambado mesmo: cheio de leite condensado e leite em pó — aproveito para pedir perdão adiantado pra qualquer pessoa que leia isso e pense que sou herege. Eu sempre odiei açaí. Sempre. Tinha pavor, odiava, não entendia o hype e julgava muito quem escolhia açaí perto da barraquinha de sorvete. Ainda prefiro sorvete? Sim. Mas o açaí tava gostoso também. O açaí não tem culpa dos meus pensamentos infundados sobre ele, muito menos da minha aversão criada num universo paralelo. Talvez a vida seja possa ser um açaí desses, basta a gente deixar os surtos pra lá, botar os dois pés no chão, ouvir a mãe e viver a vida um pouco mais, pensando um pouco (ou, no meu caso, BEM) menos. Talvez a gente só precise pegar dois limões, jogar no meio da rua e pedir um açaí na barraquinha do lado de casa. 

Mas com bastante leite condensado e leite em pó mesmo, moça. Gelado, por favor. Tá bem quente por aqui e tem areia no meu pé.

I don't know where "there" is, but it's somewhere, and I hope it's beautiful.
Tema base por Maira Gall | Edição por Giuliana Motyczka