12 de outubro de 2016

#Previously on: 09.16

Daí que resolvi tentar (pela milésima vez) voltar a escrever no blog. É um momento bom, me faz bem, e por que não, né mesmo? Conhecendo novos blogs por aí, decidi entrar na onda de recapitular o mês que passou, e talvez este se torne (caso a coisa ande) um #quadro aqui no blog — apesar de #quadro ser uma coisa tão prepotente. Tenho a minha newsletter, mas até hoje só enviei uma vez e francamente ainda não sei se sirvo pra isso. Mal mal sirvo pro blog, então...

Setembro foi um mês agitado, de idas e vindas, de uma montanha-russa que parece só ir pra cima, mas que desce lá no fundo do poço e depois volta. Mais ou menos assim. Começou muito bem, com 22 anos e indo pra rua gritar que é golpe, sim, senhor, e é um golpe acima de tudo patriarcal. Também fui ao cinema ver um filme meio bosta, sobre o qual falarei no final do post (este #quadro tem #sub-quadros e eu nunca me senti tão blogueira do século XXI). As aulas de italiano estão indo muito bem, sábado de manhã é hora de rir muito enquanto falamos "ciao" e "salve" com fluência que só a gente enxerga. E Vitória, claro, continua linda, entre tropeços e vitórias.


Setembro também foi o mês em que eu finalmente ganhei um Vinicius pra chamar de meu e abraçar (nos poucos momentos em que o Ozzy deixa), presente que meu irmão trouxe na visitinha de um final de semana. Também veio um Tom, mas deixei pra vovó. Aliás, no dia 23, uma sexta-feira à noite, comemoramos os 78 anos de vida da vovó Zô. Foi legal, tema anos 60, ela pôde ver bailarinos dançando Sinatra e pôde, ela mesma, dançar Sinatra, como fazia aos 20 e poucos sob os olhares feios do pai. É uma bênção que vovó ainda esteja aqui conosco, depois das dificuldades de não sei quantos AVCs etc. e tal, então fizemos questão de proporcionar uma festona pra ela — e ela, claro, amou. 

E o pixo sobre o Lula talvez não devesse estar perto da foto de vovó (espero que ela não veja este blog), uma vez que ela, no íntimo, continua desejando que ele desapareça. Mas, Lula, tamo junto: os slides foram um show de horrores — não tenho como provar, mas creio que os indícios são fortes.


Por fim, setembro também foi um mês cheio de atividades acadêmicas e preparações para as provas de outubro. Tive a oportunidade incrível de participar de uma aula da pós-graduação, porque sou assim, intrometida. A aula foi ministrada por um dos grandes nomes da Criminologia Crítica brasileira, e eu ainda consegui um autógrafo. Tímida, pensei que não conseguiria. Pedi ao Thiago, que me apresentou como: "Rafa, uma militante pelo abolicionismo penal e pelo feminismo", coisa que, só de escrever aqui, já fico feliz. Aparentemente, sou Rafa — e assim mesmo veio a dedicatória. Por outro lado, a monografia, coitada, anda a passos lentos e cada vez mais distantes: só tenho 7 páginas até agora e pouquíssima leitura feita. E como este blog é um espaço em que eu falo sobre tudo, nada mais justo do que assumir essa vergonha. Sinceramente não sei se conseguirei entregá-la até o dia 16 de novembro, mas cá estamos nós, sobrevivendo. 

Ah, eu também cortei o cabelo. Era pra ser um long bob, mas ficou menor do que o planejado — e tudo bem. Cabelo cresce de novo e é legal mudar de vez em quando. Faz bem pra renovar as energias e o amor próprio, dizem. Vai vendo.


Tô amando:
Pornografia de vingança: contexto histórico-social e abordagem no direito brasileiro, Vitória de Macedo Buzzi
Esse livro eu comprei há menos de uma semana, no II Congresso Sul Brasileiro de Direito, ou seja, desculpa, mas é algo de outubro. Ainda assim, queria recomendar logo a leitura, visto que é sobre um assunto relativamente novo e pouco abordado nacionalmente. Trata-se da tese de conclusão de curso da Vitória, pro curso de direito da UFSC e, portanto, traz diversos dados frutos de ampla pesquisa e questionamentos fundamentais.

VEDO do Literatour TV, Tary Zottino no youtube
Outra coisa que tá rolando em outubro, mas que eu já tô colocando aqui — até porque, quando for falar de outubro, o vlog everyday October da Tary já não existirá mais. Tary é uma das minhas melhores amigas, dona de um blog incrível e desse canal no youtube sobre literatura, cultura pop e outras coisinhas mais. Sou fãzoca e acho que todo mundo deveria conhecer. Prometi que eu mesma uma hora entrarei na onda — estamos esperando o furacão monografia passar. Enfim, tem vídeo todos os dias, entre tags e leituras recentes, com reflexões bacaninhas aqui e acolá. Só vejam.

Conheci o site da Juliana através de um vídeo da Tatiana Feltrin e me apaixonei completamente. Comprei um marcador de páginas da Gina, de Harry Potter, jurando que sou eu mesma no desenho (vai, lembra) e abrindo mão da Hermione para tanto. Mas o trabalho da Juliana é feito com tanto carinho, tanto cuidado, que eu mal vejo a hora de ter mais alguns golpinhos disponíveis pra fazer a próxima compra. 

TAG studyspo, no Tumblr
Sinto que passo longos minutos vendo essa tag no tumblr, de modo que cheguei até a criar um tumblr só meu dedicado a estudos. Eu tenho sol em virgem e não vou me desculpar por amar organização de estudos etc. e tal. Além disso, são diversas dicas e imagens que te dão vontade de sentar a bunda na cadeira e estudar — e ainda que nem sempre funcione, pelo menos a gente tá fazendo um esforcinho, né?

Não curti:

Quando as luzes se apagam, do diretor David F. Sandberg
Eu já vi alguém detonar completamente uma premissa excelente, mas como fizeram neste filme, francamente, não me lembro. O roteiro é péssimo, as atuações são forçadíssimas (mas o roteiro não colabora, fique o adendo), mal mal a fotografia salva. E isso é lamentável, já que o curta em que o filme foi baseado é muito bom, do tipo que te deixa com vontade de não dormir de luzes apagadas por meses e que se dane a conta de energia elétrica. Fui ao cinema esperando sair com sensação do peito acelerado, mas a verdade é que não consegui sequer ver o filme até o fim: saí no meio e fui tomar um sorvete. Gastei meu dinheiro no ingresso quando poderia e deveria ter comprado um Big Mac. Não entendo como isso teve nova 6.6 no imdb, mesmo.


...E por enquanto, acho que é isso. Prometo que irei me esforçar pra escrever ao longo de outubro e não deixar pra voltar aqui só pra mais um previously on. Bisou bisou! 

16 de junho de 2016

Notícias de uma guerra particular

O título desse post nada tem a ver com o documentário com o mesmo nome. Resolvi pegar o título pra mim, porque hoje tive um dia não-tão-legal e ouvi meu pai falando sobre tal documentário. Achei pertinente e peguei pra mim. Farei-me entender.

Fui uma adolescente depressiva. Tive bons dias e maus dias. Alguns piores do que simplesmente maus. Alguns insuportáveis, tão insuportáveis que culminaram em tentativas de suicídio — e esses dias foram tantos, que chegou um momento em que perdi as contas. 

Entrei na faculdade e as coisas pareceram melhorar. Lá pelo quarto período, contudo, no final de 2014, pra ser mais exata, tive outra crise e, mais uma vez, vontade de acabar com tudo. As cicatrizes no meu corpo já são tantas, que também perdi as contas. Não consigo mais contar. Algumas jamais irão sumir, já fazem parte de mim e da minha identidade. Em 2014, nasceu mais uma. Meu irmão, porém, cansado de não saber mais como lidar com tudo isso — talvez tão cansado quanto eu — foi até a minha varanda, lugar em que eu adorava me isolar pra chorar até sentir vontade de dormir, me abraçou e disse que iria me ajudar a cuidar de mim mesma.

Meu irmão iria me ajudar. Eu aceitei a ajuda. Na semana seguinte, fomos visitar uma psiquiatra. Ela foi muito querida quando eu contei a ela sobre todos os episódios e sobre dias sim, dias não, sentir vontade de sair da minha cama. E aí veio o diagnóstico: Transtorno de personalidade limítrofe ou Transtorno de Personalidade Borderline. 

Sempre gostei de Garota, Interrompida e, do nada, aos 20 anos, me tornei Susanna. Comecei a ler e estudar sobre a minha doença, buscando saber mais sobre mim mesma. Ela atinge 2% da população mundial e consiste basicamente em instabilidade emocional, em insegurança quanto a ficar sozinha, em dificuldades para manter vínculos sociais, autodepreciação e automutilação, etc. Mas isso não é todo mundo? É o que eu vivo me perguntando.

Comecei também a tomar um medicamento e logo tudo isso me causou inúmeras dores de cabeça. Tratar um transtorno mental não é barato: tem remédio, psiquiatra e psicóloga; o combo inteiro não sai por menos de R$ 1.000,00 por mês. Hoje, não tomo mais remédios, mas muito provavelmente precisarei ficar em terapia pelo resto da minha vida; e que sorte a minha poder fazê-lo. 

Depois eu percebi que ao ler sobre a minha doença na vontade de me conhecer não faria com que eu, de fato, me conhecesse. Eu não sou a minha doença. Sou muito mais do que ela. 

Mas nem sempre é fácil diferenciar.

Conviver com um diagnóstico de transtorno mental é não saber compreender a própria mente; é duvidar dos próprios sentimentos e pensamentos, questionando, o tempo inteiro, se tal coisa existe por algum motivo paupável ou é apenas mais um truque da sua própria cabeça, em mais uma tentativa de te sabotar; é ir dormir com vontade de não mais acordar, e acordar no outro dia sem vontade de sair da cama; é colocar as amizades e os vínculos sociais constantemente em cheque, porque, ao mesmo tempo em que você tenta entender que ninguém é obrigado a lidar com o seu diagnóstico, suas mudanças de humor, suas crises depressivas e nervosas, você também implora, internamente ou não, com todas as forças, pra que as pessoas fiquem, não desistam, não fujam — e quando elas fogem, você sofre, mas entende, e se culpa; é nem sempre conseguir lidar com as obrigações do cotidiano, porque, oras, existem momentos em que tudo em você pede para que você não se coloque em situações que exijam mais do que você é capaz de dar. 

Conviver com um diagnóstico é entender que você muito provavelmente nunca vai entender as coisas direito, principalmente no que se trata de si mesma. 

Passei o dia inteiro com raiva de mim, com raiva do meu corpo, de cada detalhe da minha personalidade. Passei o dia inteiro deitada na cama olhando o tempo passar, enquanto deveria estar estudando. Tem dias em que levantar da cama é a batalha mais difícil de todas — e só eu sou capaz de descrever o quão difícil é ser obrigada a me forçar a fazê-lo, em nome das obrigações sociais. Tenho total certeza de que meus pais não seriam contrários a uma possível decisão de trancar o curso e, ainda assim, sei que eu mesma não saberia lidar com essa decisão, porque me colocaria na posição de perdedora. Tomar decisões com a mente me sabotando não é fácil. 

Mas, eu não sou o meu diagnóstico. Eu não sou o meu diagnóstico. Repito a mim mesma todos os dias sempre que acordo, por pior que seja: eu não sou o meu diagnóstico. Eu sou muito mais que ele, apesar de existirem momentos em que ele fala tão alto na minha cabeça que eu mal consigo ouvir meus próprios pensamentos. Eu não sou o meu diagnóstico nem ele é a minha personalidade, porque ela existia e sempre existiu antes dele. Eu não sou o meu diagnóstico e ele pode ir embora amanhã. Eu não sou o meu diagnóstico e não permito que ele destrua o que eu sou. 

Hoje foi um dia ruim. 

Mas amanhã vai ser outro dia. 


9 de junho de 2016

Desde o meu último post, eu...

...passei por muita coisa. Hoje cedo, minha amiga Pâmela me mostrou um texto do blog dela e meu coração apertou de saudade do meu. As coisas andam caóticas, mas eu sei que isso nunca me impediu antes — eu só sempre usei essa desculpa pra deixar o blog pra lá. Não é o que eu quero, e, portanto, cá estamos; até porque, como eu disse quando comecei por aqui, eu paguei pelo domínio e, caras: tem dinheiro em jogo.

Pensei, pensei e pensei, mas não consegui chegar a alguma conclusão sobre o que escreveria aqui hoje. Tinha algumas várias coisas a dizer e, ao mesmo tempo, nada demais (pra vocês; muito pra mim). Resolvi fazer um apanhado geralzão antes de voltar aos textos específicos.

COMECEI A TRABALHAR NO MEU TCC

Decidi meu tema de TCC lá pelo quarto período, quando escrevi um artigo acadêmico entitulado "O discurso da dominação masculina no tratamento dos crimes de estupro: da sociedade ao crime". Apesar disso, creio que a vontade de me aprofundar nos estudos da criminologia e do feminismo já seguem comigo desde o segundo período, quando estagiei em uma vara criminal e peguei nas próprias mãos a realidade cortante que é ser mulher e estar expostas às mais diversas formas de violência.

Nos episódios mais recentes, a mídia noticiou largamente sobre o machismo na esfera criminal — o que vai desde perguntas como "O que você estava vestindo?" e "Você tem costume de fazer sexo em grupo?" até o juízo de valor dos diversos profissionais da área, que rapidamente julgam e condenam a vítima, mas raramente o possível estuprador. Tal realidade segue comigo desde uma vez em que ouvi de um advogado que perguntas muito semelhantes haviam sido feitas por um juiz da vara ao lado. Segue comigo desde que entrei na faculdade, já que estudo Direito — um curso machista em essência. Segue comigo desde que me entendo por gente, já que sou mulher na sociedade essencialmente patriarcal.

Misturar paixão, curiosidade e sede por pesquisa é a fórmula certa para um bom TCC, sempre me disseram. Assim, pois, meu pré-projeto já está quase saindo do forno e, se der tudo certo, no final do ano estarei apresentando minhas angústias, meus questionamentos e pouquíssimas conclusões para uma banca. E volto, eu juro que volto, pra contar tudo aqui.

VI UM GOLPE ACONTECER 

Primeiramente, é golpe, sim. Impeachment está previsto na Constituição, dizem alguns. Eu sei. Direito Constitucional é uma das minhas matérias preferidas. Contudo, uma das primeiras coisas que aprendemos ao entrar no curso de Direito, na voz daquele professor velhinho que entra na sala de aula falando tão baixo que quase não dá pra ouvir: Direito é pala. Direito é construção, é diálogo, é interpretação. Logo, sim, impeachment está previsto na Constituição — nem por isso deixa de ser, neste contexto e dadas as circunstâncias, um golpe.

Impopularidade não é motivo suficiente para impeachment. "Pedaladas fiscais" muito menos — visto que, caso fosse, todos os ex-presidentes deveriam ter sido impeachmados (inclusive o presidente interino, Michel Temer, que praticou estes muito mais do que a presidenta Dilma — e é presidenta, sim, no feminino; mas isso é outro papo).

Outro dia, fui numa palestra do grande Juarez Cirino dos Santos, criminalista internacionalmente reconhecido, que resumiu muito bem o que aconteceu: "Este golpe é a expressão mais perfeita da luta de classes, bem como a Lava Jato." Criam-se normas diferentes; interpretam-se as regras do jogo a bel-prazer em prol de uma caça às bruxas que já nem se esconde ou usa máscaras. Normas e regras preestabelecidas não importam mais, o que importa é tirar do poder alguém que não mais satisfaz aos interesses da elite e todo um plano de governo por este alguém representado; este golpe é muito mais do que meramente golpe à ordem política e jurídica: é um golpe à democracia e à busca por igualdade em todos os âmbitos — e, veja você, o PT não fez nem 1% do que prometeu fazer; não mexeu no status quo na totalidade que prometera (e aqui deixo logo estabelecido: não sou petista, justamente por isso); agora, imagine se tivesse mexido, o caos que seria...

FIZ UMA TATUAGEM NOVA 

A louca das tatuagens chegou novamente. Eu acho que um dia precisarei dedicar um post inteiro às minhas tatuagens, porque depois da segunda, parei de contar. Mas isso é mais pra frente, se me der na telha. Essa, porém, é super especial. Não sei se posso contar todos os motivos em detalhes — nem sei se quero fazer isso. Fato é que eu e minha família passamos por um período bem complicado, que teve um final mega feliz, e hoje meu irmão mora em Santa Catarina. Resolvi marcar este episódio na pele, e o fiz com um trecho de uma das minhas músicas favoritas do Chico, na letra da mamãe, que também ama tal música e foi quem me apresentou a ela. Sem dúvidas, a maior lei que sempre aprendi foi a lei de ser obrigada a ser feliz, independentemente de qualquer coisa, ao lado dos meus pais e do meu irmão, que sempre estarão de mãos dadas comigo nessa missão.

TIREI FOTO COM UM MINISTRO DO STF

Luis Roberto Barroso deu os moldes do que entendo por Constitucional, em grande parte. Sempre fui levada a ler vários textos dele, bem como a ver suas defesas na Corte. Mês passado, fui para Curitiba com duas amigas para participar do Simpósio Nacional de Direito Constitucional. Conhecemos diversas ideias, tiramos fotos com doutrinadores e pensadores incríveis, refletimos sobre questões importantíssimas e conseguimos uma foto com o Ministro que, apesar de atrasado pro voo, fez questão de nos dar um abraço e uma dedicatória fofa em cada livro nosso, após uma palestra incrível sobre liberdade, relações homoafetivas, legalização da maconha e (#meh) prisão a partir da segunda instância.

Tiro muitas coisas desse Simpósio, mas talvez a maior de todas seja, de fato, a certeza do meu chamado à docência. Saí dele renovada e muito mais inspirada a continuar estudando, pesquisando e produzindo por um Direito menos mesquinho, uma sociedade mais consciente e menos fechada em suas certezas antiquadas. Tenho um amigo muito querido que postou no facebook ainda ontem sobre acreditar na libertação através da educação libertadora — e daí a importância de ocuparmos espaços acadêmicos com ideias revolucionárias.


...E o resto é história. Eu juro que já já volto com mais algum post, tá? Eu juro que vou tentar escrever mais. Eu juro. Pelo blog, pela minha escrita e por mim mesma.

3 de abril de 2016

Jogue as bagagens no chão e não peça desculpas

Ando muito, muito cansada. No nível: tão-cansada-que-mal-consigo-saber-os-motivos-porque-não-tenho-tempo-para-tal. Mas é um cansaço que me faz sentir muito, sentir tudo, e entre umas crises de asma e uns choros aqui e ali, algumas reflexões aparecem. Daí eu resolvi escrever sobre elas. 

Estar cansada e precisar seguir com a vida, porque ela não para, é como funcionar no automático. A gente fica sem saber muito bem o que está acontecendo, mas também não consegue sentar e formular pensamentos coerentes buscando uma resposta. E quando a gente tem todo um histórico de depressão e parafusos nem sempre bem posicionados na mente, as coisas podem ficar ainda mais perigosas. Alguns dias, a gente acorda e não sente vontade de levantar da cama. Ainda assim, sabe que é cilada, tem noção de que ficar ali é abrir uma porta para possíveis retornos de episódios ruins, então se força a sair mesmo assim.


A gente segue com a vida, deixando pra lidar com as coisas não-lidáveis sempre depois. Sempre amanhã. Sempre daqui a uma hora, um mês, quem sabe. E um dia parece que tudo vem à tona, como numa caixinha localizada no lado esquerdo do peito que, após um certo tempo, não suporta mais nada e qualquer pequena coisa funciona como um estopim. Sai tudo, de repente. Não é que o novo habitante da caixinha seja enorme; às vezes, ele é menor que uma formiga. Mas a caixinha não suporta nem mais uma formiguinha.

Depois de alguns anos me forçando a suportar certas coisas, aprendi que nem tudo é lidável e tudo bem. Aprendi que, às vezes, eu não preciso ficar numa situação que me magoa e tudo bem. Aprendi que posso e devo me colocar em primeiro plano e que, por mais que eu busque com todas as minhas forças não magoar ninguém, às vezes isso invariavelmente acontece; nestes casos, eu posso pedir desculpas e, se a pessoa não aceitar, não há nada que eu possa fazer também; ser humana é aceitar que posso, a qualquer momento, magoar alguém e não posso sempre esperar que a pessoa aceite minhas desculpas e volte ao que era antes; não posso me condenar por ser humana e errar, assim como não posso condenar a outra pessoa por ter sentimentos.

Por outro lado, aprendi que nem sempre eu DEVO pedir desculpas. Vez ou outra, pode ser que eu não seja culpada; pode ser que não me interesse buscar culpados; pode ser que eu esteja tão somente colocando minha saúde mental em primeiro plano e, em minha condição humana demasiadamente humana, não me importando com as consequências. Nem sempre as consequências serão de minha responsabilidade. Se eu tenho que lidar com as minhas emoções e os meus sentimentos, as pessoas também precisam fazer o mesmo — e isso é problema delas, não meu.

Tudo bem largar o emprego que te faz mal, quando você puder fazer isso. Saber que tem gente procurando emprego não anula a negatividade que seu emprego atual está te causando. Não se culpe por ter o privilégio de poder largar o seu emprego; aproveite-o e peça demissão amanhã. O discurso do "ame o que você tem, pois tem gente numa situação pior" não pode e não deve servir para te fazer aceitar coisas que não te fazem bem. A grama escura do vizinho não torna a sua mais verde, e por mais triste que isso pareça, ninguém realmente se importa se você sair do seu emprego.

Tudo bem sair de uma relação tóxica. Eu sei que a gente tem medo de tudo que é novo, sei que por vezes a gente insiste em algo que nos faz mal tão somente por temer não se adaptar à vida sem tal coisa, mas, eu juro: é sempre muito mais justo colocar-se em primeiro plano do que valorizar uma situação que te faz mal por medo do desconhecido.


Are the details in the fabric?
Are the things that make you panic?

Are your thoughts results of static cling? 
Are the things that make you blow?
Hell, no reason, go on and scream...

Qual a finalidade desse texto? Eu não sei, não sei mesmo. Eu só tinha algumas coisas a dizer e talvez tenha ficado meio sem sentido, meio frases desconexas que não chegam a lugar nenhum. Mas tudo bem. Acho que é isso: é sobre tudo bem e sobre não pedir desculpas. Tudo bem não estar bem e tudo bem não pedir desculpas por isso. A gente precisa aprender a não pedir desculpas por sermos humanos, por errarmos, por colocar em primeiro plano a nossa própria sanidade. A gente precisa parar de pedir desculpas para fazer bem ao outro em detrimento de nós mesmos. A gente precisa parar de pedir desculpas por nem sempre estar bem. 

E tudo bem. 

10 de fevereiro de 2016

TAG: 20 músicas [parte 1]

Outro dia, a Lu, uma das blogueiras/vlogueiras que eu mais amo seguir, carregou um vídeo com mais uma tag musical. Eu não sei ao certo se já respondi essa tag em algum momento da vida ou se foi apenas uma variação dela, mas, por algum motivo, me deu vontade de respondê-la (de novo?). Só que, como são perguntas muito ~amplas~ e eu acho muito que algumas delas (se não todas) vão mudando de acordo com cada momento de nossas vidas, já vou deixando claro que essas respostas são de agora e podem mudar em questão de dias. 

Aproveitando o embalo, convido a Analu, a Anna, a Giu, a Mimi, a Tary, a Michas e quem mais quiser para vir comigo nessa.

Bora lá?

1. Sua música favorita: Oceans (Where Feet May Fail) - Hillsong United


Eu poderia colocar Vienna aqui, mas ela terá sua menção honrosa ainda nesta mesma leva. "Oceans" é minha música favorita atualmente, porque é como um abraço de mãe e pai quando eles não estão, necessariamente, no recinto. E a versão ao vivo é ainda mais impactante, porque mostra umas sei lá quantas mil pessoas reunidas, todas cantando numa só voz, como se de repente se tornassem um só corpo, unido num único propósito que é o de proclamar a fé. Vivo dizendo que ter fé e demonstrá-la não pode se tornar ultrapassado, por mais que seja tão recorrente nos dias de hoje. Você não está cometendo suicídio intelectual por acreditar em um criador por trás da criação. "Oceans" me lembra disso, todos os dias (porque eu devo ouvi-la pelo menos uma vez por dia, sempre com umas lagriminhas aqui e ali). "Oceans" sou eu gritando pra Deus e o mundo que não estou sozinha, nunca estive, que aquele que anda comigo nunca falhou, não irá começar agora e irá, sempre, me levar pra mais longe do que os meus pés sequer conseguem imaginar. O que eu sinto com essa música não pode ser descrito num post de blog, porque é muito mais do que eu sequer consigo acreditar que sinto. 

2. A música que você mais odeia: Girl on Fire - Alicia Keys


Gente, se eu odeio, não tenho nem que colocá-la no meu blog, né? Vocês sabem qual é. Deixemos este espacinho aqui poupado pra músicas que eu realmente gosto. Essa música eu detesto, acho irritante, acho clichê, acho péssima e sempre me faz — de maneira extremamente irritante — pensar na Katniss (o que vez ou outra rende boas risadinhas, de tão patética que a coisa toda é). Enfim, só parem de tocar isso.

3. Uma música que te deixa triste: Breathe Me - Sia


Assim como a música anterior, eu acho muito difícil falar sobre algo que me deixa triste. Não gosto de falar de coisas que odeio e gosto ainda menos de falar daquilo que me deixa triste. Essa música me lembra alguns dos momentos mais sombrios da minha vida, em que eu me trancava no banheiro do meu quarto e ficava lá, por horas, com só essa música tocando repetidamente, assim, sem que eu precisasse sequer apertar o botão de replay. Era como uma playlist inteira composta tão somente por essa música. "Breathe Me" é talvez uma das músicas mais fortes pra toda adolescente da minha época que sofreu com qualquer tipo de distúrbio mental ou alimentar (ela simbolizou, durante muito tempo, a luta das meninas contra anorexia e bulimia, aliás). Então, sim, é uma canção que me deixa triste. Triste mesmo, daquele tipo de tristeza que me faz querer ficar deitada em posição fetal até esquecer.

4. Uma música que te lembra alguém: History - One Direction


#abreparentêses Só pra frisar mais uma vez: essa tag está sendo respondida pensando no contexto atual, tá bem? Então tá bem! #fechaparênteses Quem me conhece, sabe que eu tenho uma paixão secreta por One Direction, mas não sou exatamente o tipo de pessoa que tira uma tarde de sábado pra ouvir todo o CD novo dos caras numa tacada só. Eu vou ouvindo conforme as músicas aparecem pra mim. Essa apareceu outro dia, quando o clipe saiu, e eu imediatamente relacionei-a à minha melhor amiga, porque, gente, né? São 9 anos de amizade e, apesar de não termos aquela amizade de filme que começa logo no berço, é como eu sinto. A gente tem a whole lot of history (mesmo!) e somos definitivamente o melhor time que o mundo já viu. E, bom, ela ama One Direction, então tem isso também.

5. Uma música que te deixa feliz: Just The Way You Are - Bruno Mars



Mais uma vez, eu poderia colocar outra música aqui, mas ela irá aparecer em um momento mais apropriado, então vai essa mesmo. Eu fiz questão de colocá-la junto com o motivo pelo qual eu a amo tanto, esse vídeo maravilhoso de #mondler, melhor casal da coisa toda, então vocês tratem de ver. Eu prometo que vai encher os coraçõeszinhos de vocês com muito amor. E, ah, eu sei lá, vai: a letra dessa música é muito fofinha e faz com que a gente queira muito se amar, sair por aí jogando flores por onde a gente passa e comprando chocolate pra nós mesmas, porque somos amazing just the way we are. Dá um desconto pra mim.

6. Uma música que te lembra um momento específico: Run The World (Girls) - Beyoncé


Assim que li a proposta dessa número 6, lembrei de cara da minha amiga e eu gritando GIRLS!!!!11 a todo o momento no casamento de outra amiga nossa. Foi tão engraçado, porque foi tão espontâneo. Eu nem lembro como a coisa toda se deu, mas sei que a gente passou o resto da noite inteira se olhando e gritando GIRLS!!!!11, proclamando pra todo mundo presente na festa que quem manda no mundo são as GIRLS!!!!11, saindo um pouco do limite razoável e completamente dominadas por todo o empoderamento feminino que a música proporciona. Fato é que eu não sei mais ouvir essa música sem lembrar desse momento magnificamente único. WHO RUN THE WORLD? GIRLS!!!!11 GIRLS!!!!11 GIRLS!!!!11 GIRLS!!!!11 GIRLS!!!!11 GIRLS!!!!11 GIRLS!!!!11 GIRLS!!!!11  GIRLS!!!!11 

7. Uma música que você sabe a letra inteira: Vienna - Billy Joel


"Vienna" conseguiria ser encaixada em música preferida, música que me deixa feliz e outras mais. Mas, como eu tô tentando fazer a coisa toda variar um pouco, deixei-a aqui. Acho que não haverá um momento da minha vida em que eu não saberei cantar essa música inteirinha e em que ela não me transmitirá uma paz absurda com cada palavra, cada verso. Essa música é uma espécie de alento, de modo que eu faço questão de me dar o presente de, vez ou outra, voltar da faculdade, onze da noite, cantarolando ela no carro.

8. Uma música que te dá vontade de dançar: Worth It - Fifth Harmony 


Não tem muito o que falar, né? Presta atenção nesse ritmo e você mesma vai se pegar balançando a bunda por aí, pela casa, pela rua, pela academia, seja o que for. Eu não consigo não dançar com essa música, de modo que, sim, eu já andei nas ruas de Vitória com pelo menos uns passinhos de dança mentalmente ensaiados e essa música nos fones de ouvido, mesmo nos dias mais desanimados. Gente, é involuntário. Menção honrosa para: Bang, da Anitta, que eu vou poupar vocês de maiores comentários sobre minha extrema frustração em ser absolutamente incapaz de aprender a coreografia.

9. Uma música que te faz dormir: Deep in the Meadow - Jennifer Lawrence


Já comentei inúmeras vezes sobre minha relação de muito amor com essa música. Ela me traz serenidade, faz com que eu esqueça absolutamente tudo de ruim que possa ter acontecido durante o meu dia e prepare o meu interior pra uma noite de sono muito tranquila. Mas eu tenho toda uma playlist inteira, majoritariamente formada por músicas instrumentais de filmes e seriados, que você pode dar uma conferida aqui, caso queira — altamente recomendável para viagens longas e noites de insônia.

10. Uma música que você gosta em segredo: Que Sorte a Nossa - Matheus e Kauan


Ah, gente, na real mesmo eu não ligo muito pra essas coisas de ~gostar em segredo~, não. Vez ou outra minha atividade do Spotify no Facebook mostra lá Dennis DJ ou Mc Sapão e eu tô cá numa boa. A galera vem tirar onda e eu até convido pra vir comigo largar as convenções sociais. Demorei muito até conseguir me livrar desses pensamentos bestas, mas depois que consegui, não teve mais volta. Tanto é que hoje eu tenho uma playlist de sertanejo e outra de funk — e zero f*das foram dadas pra caso alguém descubra elas (prova disse  é que eu estou compartilhando elas aqui no blog). Gosto de sertanejo, funk, pago, samba e algumas coisas mais, sim. "Que Sorte a Nossa" é uma das minhas músicas favoritas dos últimos tempos, sim, e eu ainda espero pelo dia em que usarei ela como legenda de foto no instagram, sem medo de ser feliz.


...Continua.

5 de fevereiro de 2016

Esta não é uma história de amor

(Você pode ler este texto ao som de Colors, da Halsey, por motivos)


Dia desses, minha amiga contou a incrível história de amor que ela está tendo a sorte grande de uma vez na vida de vivenciar. Eu, que amo uma boa história de amor, não consegui deixar de sentir uma imensa felicidade ao vê-la tão feliz com alguém que parece amá-la na mesma intensidade que ela, depois de tantos anos esperando por isso. Daí resolvi, eu mesma, escrever sobre amor, daqui, de onde eu estou no momento. Aguente comigo.

Você era vermelho.

Há alguns meses, me apaixonei. Muito. Não foi de brincadeira, foi real. Depois de passar cinco anos perdidamente apaixonada por alguém que mal lembrava meu nome do meio, eu resolvi dar mais uma chance pra esse lance de paixonite. Mas o que veio pareceu mais uma tsunami e, quando eu vi, já estava mergulhada, com água por todos os lados, e muito, muito feliz por isso. Afogar-me em algo nunca pareceu tão certo e eu não fazia qualquer questão de lembrar como deveria fazer para respirar. 

E gostou de mim porque eu era azul.

Eu estava disposta a fazer tudo por aquele sentimento, que parecia tão certo, tão bom e tão finalmente ali, porque perdidamente é a única maneira com a qual eu sei amar qualquer coisa, quem dirá uma pessoa, com um coração dentro do peito, ali, tão real, de carne e osso. Eu não consigo fazer nada pela metade, tem que ser inteiro, inteiro mesmo, com tudo que isso traz consigo e até mais, se preciso for. Não sei olhar pro agora e pensar tão somente nele, por mais perigoso que isso possa ser, porque, há algum tempo, eu decidi viver sem medo. Eu me entrego pro futuro indeterminado, da cabeça aos pés, com uma esperança inabalável de que nele haverá algo incrível. Viver sem medo significa aceitar o futuro com tudo o que ele possa trazer, mas tendo dentro de mim um coração destemido, que me enche com planos e planos de muito amor, desses que deixam a gente acordada à noite, de lá pra cá na cama.

Você me tocou e, de repente, eu era um céu lilás.

Bom, enfim, lá estava eu, com meus planos e minhas ideias, aquela tsunami de sentimentos dentro de mim, convencida mais e mais a cada dia que eu estava certa, que tudo ficaria bem e que era real. Convenci a mim mesma de que era real e seria real por pelo menos algum tempo. Me despi de todo e cada receio ou convenção social. Fiquei nua, sem meias palavras e meios pudores ensinados desde o berço. Aceitei minha nudez e abracei-a como nunca antes, em todos os sentidos. Fiquei nua enquanto ele me tocava e um arrepio percorria todo o meu corpo, nua quando ia dormir e só via o rosto dele na minha cabeça, nua quando me pegava questionando qualquer parte de mim que ainda não se sentia suficiente. Nua de tudo. N-u-a, uma palavra que eu nem sequer contemplava antes. Senti como se naquele mundinho nosso, nada mais fosse necessário, pois tudo havia se tornado tão pequeno diante do contato da minha pele na dele. Tudo havia se tornado burburinho, todo o mundo estava em preto e branco.

E você decidiu que roxo não era pra você.

E daí, num belo dia, o burburinho se tornou um grito estridente, porque tudo começou a se despedaçar. "Estamos indo rápido demais", "Acho que isso não está funcionando" e "Você criou muitas expectativas", bem assim mesmo, como se o mundo de só duas pessoas houvesse se transformado em uma multidão com dedos apontados bem na minha cara. Por algum tempo, eu engoli aqueles dedos que apontavam pra mim e internalizei tudo. Aceitei que era tudo culpa minha, que eu era havia sonhado demais, que eu havia pressionado-o a fazer coisas que ele não queria, que eu havia deixado-o esperando por muito tempo, dentre tantas coisas mais. Pensei e repensei o que eu poderia ter feito para que ele não tivesse ido embora.

Demorou muito tempo até eu entender que a culpa não era minha e que um relacionamento é feito de duas pessoas. Se tem algo que aprendi com essa experiência, definitivamente, é que expectativas não são criadas sozinhas, nunca são. E poucas coisas são mais cruéis do que alimentar no outro um sentimento e, de uma hora pra outra, decidir que você já não-está-mais-tão-afim. Poucas coisas são mais cruéis do que deixar que o outro se apaixone por você sem que fique muito claro que você não-está-tão-afim. Porque não há nada de errado em não-estar-tão-afim e ir embora. Mas é absolutamente cruel deixar que as coisas aconteçam de uma maneira a vestir uma máscara e responder cada "Eu gosto mesmo de você" na mesma intensidade, no mesmo tom de voz, somente pra depois decidir não voltar mais.

Demorou muito tempo até eu entender que não era amor.

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Minha história não é a única neste pacote, não sou a diferentona do rolê. O roteiro é tão clichê neste mundo cada vez mais formado por pessoas descartáveis, impulsivas e medrosas. Impulsivas (ou seriam mentirosas?), sim, pois vomitam frases prontas sem realmente buscar entender se o sentimento está dentro delas ou não. Medrosas, sim, pois fogem de qualquer coisa com a qual não saibam lidar direito, o que inclui sentimentos. Essas pessoas seguem uma fórmula que conheço há pouco e muito me machuca: não consigo lidar com tal coisa = vou descartá-la. O imediatismo da era moderna atingiu os relacionamentos humanos de forma que (quase) ninguém mais ama ninguém plenamente; e quando digo plenamente, quero dizer: amar até os defeitos, aceitar que relacionamentos são construídos, aparar as arestas, e não simplesmente jogar no lixo todo um universo de possibilidades de sentimentos tão bonitos.

Pensei muito antes de escrever este texto, com medo de parecer ridícula ou intensa demais, de acabar virando piada de bêbado em mesa de bar, e não posso dizer que não estou machucada. Ainda estou, sim. Mas, tudo passa, mesmo as feridas mais abertas que a gente carrega como uma cruz. Tudo passa. E das minhas feridas cuido eu, da maneira que eu bem entender — se for pra virar piada, tudo bem também. Não vou me desculpar por como eu escolho consertar o que foi quebrado, como Meredith Grey muito certeiramente ensinou.

Outro dia, uma amiga me perguntou se eu ainda acredito que existe alguém aí para mim e para ela. 

Eu disse que sim. 

Porque decidi viver sem medo — e viver sem medo implica viver com um coração cheio de esperança, fé e amor.

Eu disse que acredito no amor e espero por ele, mas espero que ele venha de forma a me fazer bem, não a me colocar para baixo por ser exatamente como sou — porque, como eu disse: isso não é amor. Quero um amor que não me faça pedir desculpas. Quero alguém pra quem eu não precise constantemente justificar os motivos pelos quais sinto e sinto muito, tudo, o tempo inteiro. Quero alguém que não sinta medo do quanto eu amo. Quero alguém pra quem eu possa dizer que amo, amo sim, com a certeza que vem de dentro de mim, sem fingir que somente adoro ou gosto muito. Quero alguém que mergulhe de cabeça, sem medo de parecer bobo ou de amanhã encontrar uns arranhões no braço. Quero alguém para quem eu fique nua e que fique nu pra mim também, de todas as maneiras possíveis, sem fingir um beijo que nunca quis dar pra começo de conversa. Quero alguém que vibre na mesma intensidade que eu, alguém com quem eu entre em sintonia perfeita e alguém que esteja disposto não a ser uma âncora ou um bote salva-vidas, mas a se afogar junto comigo, sem me deixar de uma hora pra outra lá no fundo do mar sozinha.

She lost him.
But she found herself.
And somehow that was everything.

1 de fevereiro de 2016

A vida pode ser um açaí com leite em pó e leite condensado

Ou: o que ficou de janeiro, o famigerado primeiro mês de 2016

Fiquei encarando a tela por alguns minutos até pensar em como contaria algum apanhadão geral de janeiro, meio sem saber sequer o título. Mas ele veio e pareceu um sopro no meu ouvido. 

No finalzinho de dezembro (dia 30), viajei para uma vila de praia com alguns amigos. Alugamos uma casa lá em meados de 2015 e passamos metade do ano inteiro planejando tudo, desde compras de supermercado até ventiladores que seriam levados. Mas como eu sou a mestra do Na Hora Marco, Depois Prefiro Minha Cama™, cerca de duas semanas antes, estava eu caçando mil e um motivos pelos quais eu não deveria ir pra Itaúnas (este é o nome da vila, aliás): perguntei como era a casa, recebi uma foto e quase infartei ao ver que a casa não tinha grade/cerca/seja-lá-como-se-chame-isso-aí (e não houve "mas, relaxa, a vila é bem simples e todas as casas são assim mesmo" que me fizesse surtar menos); passei, então, a sair fazendo uma pesquisa de campo (nisso, devo ter perguntado para aproximadamente 10 pessoas coisas como: 1 - Mas como é lá? 2 - O que tem de legal pra fazer? 3 - A praia tem quiosques? 4 - À noite, o que vocês fazem? 5 - Onde fica a farmácia na vila?, chegando até a patética: "No meu lugar, você estaria animada pra ir?", como que torcendo pra que a resposta criasse em mim uma animação que eu não conseguia sentir sozinha); ainda frustrada e desesperada demais para pensar direito, passei as coordenadas da casa pro meu pai, e, pai que é pai entra na doideira junto (até incentiva-a!), então no segundo seguinte, Júlio, O Pai, estava procurando algum colega policial por lá — e eu tenho certeza de que até hoje esse tal colega sabe meu CPF, meu tipo sanguíneo, o meu apelido de infância, etc.; apenas porque vai que, né?

Tentei me sabotar por uns dias mais. Aí cheguei na fase da aceitação: vou, vai ser legal e, de qualquer forma, vai acabar rapidinho, não dá nem uma semana. Saí para comprar um biquíni e uns shorts jeans — e essa parte exigiu um esforço de outro mundo pra continuar na vibe vou-vai-ser-legal-e-acaba-rápido, porque autoaceitação não trabalhamos desde nunca, apesar de falar tanto sobre ela e sua importância (volte mais tarde, porque aqui o lema é: faça o que eu falo, nunca o que eu faço). Quando o dia finalmente chegou, eu fiquei chorando de nervosismo e, às 3 da manhã, acordei a minha mãe, em uma crise de pânico (é sério isso), aos prantos, dizendo que algo dentro de mim me avisava pra eu não ir. Eu sigo muito a minha intuição e eu realmente achei que algo estava me dizendo pra deixar aquela coisa toda de lado. Eu pago tudo, mãe, reembolso vocês, mas, por favor, ME DIGA QUE TUDO BEM SE EU NÃO FOR MAIS!, eu disse, mais uma vez esperando que a resposta da pessoa com quem eu estava falando fosse me dar algum tipo de conforto. Mamãe pegou a minha mão, ainda com os olhinhos cheios de um sono interrompido, e disse: Filha, vá. Divirta-se. Vai ficar tudo certo. Se detestar, liga pra gente e nós vamos na hora te buscar. 

Apesar de achar sacanagem fazer meus pais viajarem por 4 horas apenas pra me buscar, porque eu, de forma mimadíssima, não estava sabendo lidar com nada™, aceitei. Eu sei que muito provavelmente nunca pediria pra eles irem, então era uma decisão meio fajuta, mas aceitei mesmo assim. Mãe é mãe. Mãe sabe das coisas, todo mundo sempre disse isso.

Daí ok, acelera pra parte em que, depois de 4 horas de viagem, chegamos à vila e fomos recepcionados por um cara com um facão preso na calça jeans, única vestimenta que ele estava usando. Ele entrou na frente da nossa van e fez sinal para pararmos. Meu coração acelerou, meu corpo inteiro ficou paralisado da cabeça aos pés na hora, e eu não sei nem o que mais eu fiz além de olhar pros meus amigos em pânico, meio que perguntando, com os olhos, se eles estavam vendo o mesmo que eu. Pensei: É isso, bonita, bem feito, é isso que acontece quando você não ouve à própria intuição: VOCÊ MORRE. 


Surtei um pouco e fiz todo mundo surtar junto, apenas para descobrir depois que o cara na verdade estava reivindicando um direito da comunidade que pedia há anos por um quebra molas pra evitar acidentes. O medo se transformou em, como disse meu pai, numa tentativa muito inovadora™ de me acalmar, uma aula particular de sociologia e Direito no concreto, seja lá o que isso queira dizer. 

No final das contas, Itaúnas não era muito diferente do que eu esperava (depois de ter feito aquela longa pesquisa de campo): muitas drogas, muita galera legalize, praia, dunas de areia, bebida o dia inteiro e reggae. Eu sei, não parece comigo. Não parece mesmo. Eu não bebo, não uso drogas, detesto (ou costumava detestar, até os 19 ou 20 anos) praia e areia. E não tem como detestar essas coisas em Itaúnas, onde tem areia até embaixo da sua cama, se você olhar bem. Eu aceitei entrar nesse barco porque tudo que faço com as minhas amigas acaba sendo legal ou, ao menos, história pra contar. Essa viagem virou história legal pra contar, porque serviu de aprendizado.  

E todo o resto do mês é história de como eu lidei com toda essa novela do meu final de 2015, basicamente.

Por que o título?, vocês perguntam. Em Itaúnas, eu tomei açaí pela primeira vez. Mas, assim, esculhambado mesmo: cheio de leite condensado e leite em pó — aproveito para pedir perdão adiantado pra qualquer pessoa que leia isso e pense que sou herege. Eu sempre odiei açaí. Sempre. Tinha pavor, odiava, não entendia o hype e julgava muito quem escolhia açaí perto da barraquinha de sorvete. Ainda prefiro sorvete? Sim. Mas o açaí tava gostoso também. O açaí não tem culpa dos meus pensamentos infundados sobre ele, muito menos da minha aversão criada num universo paralelo. Talvez a vida seja possa ser um açaí desses, basta a gente deixar os surtos pra lá, botar os dois pés no chão, ouvir a mãe e viver a vida um pouco mais, pensando um pouco (ou, no meu caso, BEM) menos. Talvez a gente só precise pegar dois limões, jogar no meio da rua e pedir um açaí na barraquinha do lado de casa. 

Mas com bastante leite condensado e leite em pó mesmo, moça. Gelado, por favor. Tá bem quente por aqui e tem areia no meu pé.

I don't know where "there" is, but it's somewhere, and I hope it's beautiful.

28 de janeiro de 2016

Pleno 2016 e eu começando um blog

Hello, stranger. 

Ou algo do tipo.

Cá estamos nós de novo, mais uma vez dizendo que vamos voltar pra essa novela de ter e manter um blog ativo. Eu sei exatamente os motivos pelos quais resolvi voltar a escrever, sei os motivos pelos quais escolhi fazer isso numa plataforma nova, etc. Talvez eu devesse começar explicando. 

Bom, quem acompanhava o meu blog anterior (RIP), sabe que eu já tive algumas crises existenciais com ele. Meu blog viveu comigo por altos e baixos, passou pela treva do Ensino Médio e me causou algumas dores de cabeças de pessoas-que-nada-sabem-de-nada tirando sarro do nome dele. Passei o colegial inteirinho sendo chamada de Ela Rafaela, e eu acho que isso talvez faça com que eu volte àquele período, que não foi o melhor, e reviva algumas das piores lembranças da minha vida. Não estou aqui dizendo que tenho rancor do meu blog anterior, de forma alguma, a gente aprendeu um monte de coisas junto — tanto é que eu jamais pensaria em excluí-lo. Só que hoje estou em um outro lugar, o qual não cabe mais nele. Cresci agora sou mulher e acho que criar um blog novo é uma forma de marcar isso, de uma vez por todas. Sou uma outra pessoa e mereço um outro lugar, novinho em folha, para escrever sobre essa outra pessoa, com outro óculos e outro ponto de vista. O clima aqui é ótimo, o ar que eu respiro é puro e, ufa, ainda bem que cheguei aqui.

Como nada é tão simples na vida de quem não manja de layout e todos os paranauês que ter um blog envolve, eu got by with a little help from my friend e resolvi pedir ajuda pra Giu. Fácil não foi, mas Amanda Palmer me ensinou que tudo bem pedir, ainda mais quando a pessoa do outro lado da linha é uma das minhas melhores amigas com todas as implicações que a expressão carrega. A Giu riu da minha cara, "não acredito que você ficou com vergonha de me pedir isso, sua creiça!", e arrumou esse layout maravilhoso pra mim em menos de 24 horas (sério, essa mulher é sem precedentes). Minutos depois, conversando com ela, foi que eu decidi começar do zero e dar este título — que ficou bem parecido com o dela, de tão bichas que somos. 

Not your honey pie é o título dessa minha nova casa por motivos de "My Song 5", das HAIM, sim, mas também porque acho que expressa muito bem o meu atual momento da vida, o lugar no qual estou. Não sou a tortinha de mel de ninguém, não levo mais desaforo pra casa e cansei de colocar minha felicidade nas mãos de pessoas-que-nada-sabem-de-nada. Enfim, sempre que eu quero me lembrar de tudo isso, de como cheguei aqui e de como precisei andar pelo inferno pra me salvar, eu coloco essa música pra tocar, junto com a minha armadura de bad boss e toco a minha vida. Geralmente funciona, quase sempre, entre altos e baixos.

No mais, acho que é isso? É uma aventura, mas é das melhores. Espero que daqui a uns meses eu não olhe para este blog e pense que foi um desperdício de dinheiro aquele que usei para pagar pelo domínio. Tomara que não. 

Sei lá, é a Gillian Anderson, usando vermelho e dando boas vindas. Quer mais o que?

Tema base por Maira Gall | Edição por Giuliana Motyczka