16 de junho de 2016

Notícias de uma guerra particular

O título desse post nada tem a ver com o documentário com o mesmo nome. Resolvi pegar o título pra mim, porque hoje tive um dia não-tão-legal e ouvi meu pai falando sobre tal documentário. Achei pertinente e peguei pra mim. Farei-me entender.

Fui uma adolescente depressiva. Tive bons dias e maus dias. Alguns piores do que simplesmente maus. Alguns insuportáveis, tão insuportáveis que culminaram em tentativas de suicídio — e esses dias foram tantos, que chegou um momento em que perdi as contas. 

Entrei na faculdade e as coisas pareceram melhorar. Lá pelo quarto período, contudo, no final de 2014, pra ser mais exata, tive outra crise e, mais uma vez, vontade de acabar com tudo. As cicatrizes no meu corpo já são tantas, que também perdi as contas. Não consigo mais contar. Algumas jamais irão sumir, já fazem parte de mim e da minha identidade. Em 2014, nasceu mais uma. Meu irmão, porém, cansado de não saber mais como lidar com tudo isso — talvez tão cansado quanto eu — foi até a minha varanda, lugar em que eu adorava me isolar pra chorar até sentir vontade de dormir, me abraçou e disse que iria me ajudar a cuidar de mim mesma.

Meu irmão iria me ajudar. Eu aceitei a ajuda. Na semana seguinte, fomos visitar uma psiquiatra. Ela foi muito querida quando eu contei a ela sobre todos os episódios e sobre dias sim, dias não, sentir vontade de sair da minha cama. E aí veio o diagnóstico: Transtorno de personalidade limítrofe ou Transtorno de Personalidade Borderline. 

Sempre gostei de Garota, Interrompida e, do nada, aos 20 anos, me tornei Susanna. Comecei a ler e estudar sobre a minha doença, buscando saber mais sobre mim mesma. Ela atinge 2% da população mundial e consiste basicamente em instabilidade emocional, em insegurança quanto a ficar sozinha, em dificuldades para manter vínculos sociais, autodepreciação e automutilação, etc. Mas isso não é todo mundo? É o que eu vivo me perguntando.

Comecei também a tomar um medicamento e logo tudo isso me causou inúmeras dores de cabeça. Tratar um transtorno mental não é barato: tem remédio, psiquiatra e psicóloga; o combo inteiro não sai por menos de R$ 1.000,00 por mês. Hoje, não tomo mais remédios, mas muito provavelmente precisarei ficar em terapia pelo resto da minha vida; e que sorte a minha poder fazê-lo. 

Depois eu percebi que ao ler sobre a minha doença na vontade de me conhecer não faria com que eu, de fato, me conhecesse. Eu não sou a minha doença. Sou muito mais do que ela. 

Mas nem sempre é fácil diferenciar.

Conviver com um diagnóstico de transtorno mental é não saber compreender a própria mente; é duvidar dos próprios sentimentos e pensamentos, questionando, o tempo inteiro, se tal coisa existe por algum motivo paupável ou é apenas mais um truque da sua própria cabeça, em mais uma tentativa de te sabotar; é ir dormir com vontade de não mais acordar, e acordar no outro dia sem vontade de sair da cama; é colocar as amizades e os vínculos sociais constantemente em cheque, porque, ao mesmo tempo em que você tenta entender que ninguém é obrigado a lidar com o seu diagnóstico, suas mudanças de humor, suas crises depressivas e nervosas, você também implora, internamente ou não, com todas as forças, pra que as pessoas fiquem, não desistam, não fujam — e quando elas fogem, você sofre, mas entende, e se culpa; é nem sempre conseguir lidar com as obrigações do cotidiano, porque, oras, existem momentos em que tudo em você pede para que você não se coloque em situações que exijam mais do que você é capaz de dar. 

Conviver com um diagnóstico é entender que você muito provavelmente nunca vai entender as coisas direito, principalmente no que se trata de si mesma. 

Passei o dia inteiro com raiva de mim, com raiva do meu corpo, de cada detalhe da minha personalidade. Passei o dia inteiro deitada na cama olhando o tempo passar, enquanto deveria estar estudando. Tem dias em que levantar da cama é a batalha mais difícil de todas — e só eu sou capaz de descrever o quão difícil é ser obrigada a me forçar a fazê-lo, em nome das obrigações sociais. Tenho total certeza de que meus pais não seriam contrários a uma possível decisão de trancar o curso e, ainda assim, sei que eu mesma não saberia lidar com essa decisão, porque me colocaria na posição de perdedora. Tomar decisões com a mente me sabotando não é fácil. 

Mas, eu não sou o meu diagnóstico. Eu não sou o meu diagnóstico. Repito a mim mesma todos os dias sempre que acordo, por pior que seja: eu não sou o meu diagnóstico. Eu sou muito mais que ele, apesar de existirem momentos em que ele fala tão alto na minha cabeça que eu mal consigo ouvir meus próprios pensamentos. Eu não sou o meu diagnóstico nem ele é a minha personalidade, porque ela existia e sempre existiu antes dele. Eu não sou o meu diagnóstico e ele pode ir embora amanhã. Eu não sou o meu diagnóstico e não permito que ele destrua o que eu sou. 

Hoje foi um dia ruim. 

Mas amanhã vai ser outro dia. 


3 de abril de 2016

Jogue as bagagens no chão e não peça desculpas

Ando muito, muito cansada. No nível: tão-cansada-que-mal-consigo-saber-os-motivos-porque-não-tenho-tempo-para-tal. Mas é um cansaço que me faz sentir muito, sentir tudo, e entre umas crises de asma e uns choros aqui e ali, algumas reflexões aparecem. Daí eu resolvi escrever sobre elas. 

Estar cansada e precisar seguir com a vida, porque ela não para, é como funcionar no automático. A gente fica sem saber muito bem o que está acontecendo, mas também não consegue sentar e formular pensamentos coerentes buscando uma resposta. E quando a gente tem todo um histórico de depressão e parafusos nem sempre bem posicionados na mente, as coisas podem ficar ainda mais perigosas. Alguns dias, a gente acorda e não sente vontade de levantar da cama. Ainda assim, sabe que é cilada, tem noção de que ficar ali é abrir uma porta para possíveis retornos de episódios ruins, então se força a sair mesmo assim.


A gente segue com a vida, deixando pra lidar com as coisas não-lidáveis sempre depois. Sempre amanhã. Sempre daqui a uma hora, um mês, quem sabe. E um dia parece que tudo vem à tona, como numa caixinha localizada no lado esquerdo do peito que, após um certo tempo, não suporta mais nada e qualquer pequena coisa funciona como um estopim. Sai tudo, de repente. Não é que o novo habitante da caixinha seja enorme; às vezes, ele é menor que uma formiga. Mas a caixinha não suporta nem mais uma formiguinha.

Depois de alguns anos me forçando a suportar certas coisas, aprendi que nem tudo é lidável e tudo bem. Aprendi que, às vezes, eu não preciso ficar numa situação que me magoa e tudo bem. Aprendi que posso e devo me colocar em primeiro plano e que, por mais que eu busque com todas as minhas forças não magoar ninguém, às vezes isso invariavelmente acontece; nestes casos, eu posso pedir desculpas e, se a pessoa não aceitar, não há nada que eu possa fazer também; ser humana é aceitar que posso, a qualquer momento, magoar alguém e não posso sempre esperar que a pessoa aceite minhas desculpas e volte ao que era antes; não posso me condenar por ser humana e errar, assim como não posso condenar a outra pessoa por ter sentimentos.

Por outro lado, aprendi que nem sempre eu DEVO pedir desculpas. Vez ou outra, pode ser que eu não seja culpada; pode ser que não me interesse buscar culpados; pode ser que eu esteja tão somente colocando minha saúde mental em primeiro plano e, em minha condição humana demasiadamente humana, não me importando com as consequências. Nem sempre as consequências serão de minha responsabilidade. Se eu tenho que lidar com as minhas emoções e os meus sentimentos, as pessoas também precisam fazer o mesmo — e isso é problema delas, não meu.

Tudo bem largar o emprego que te faz mal, quando você puder fazer isso. Saber que tem gente procurando emprego não anula a negatividade que seu emprego atual está te causando. Não se culpe por ter o privilégio de poder largar o seu emprego; aproveite-o e peça demissão amanhã. O discurso do "ame o que você tem, pois tem gente numa situação pior" não pode e não deve servir para te fazer aceitar coisas que não te fazem bem. A grama escura do vizinho não torna a sua mais verde, e por mais triste que isso pareça, ninguém realmente se importa se você sair do seu emprego.

Tudo bem sair de uma relação tóxica. Eu sei que a gente tem medo de tudo que é novo, sei que por vezes a gente insiste em algo que nos faz mal tão somente por temer não se adaptar à vida sem tal coisa, mas, eu juro: é sempre muito mais justo colocar-se em primeiro plano do que valorizar uma situação que te faz mal por medo do desconhecido.


Are the details in the fabric?
Are the things that make you panic?

Are your thoughts results of static cling? 
Are the things that make you blow?
Hell, no reason, go on and scream...

Qual a finalidade desse texto? Eu não sei, não sei mesmo. Eu só tinha algumas coisas a dizer e talvez tenha ficado meio sem sentido, meio frases desconexas que não chegam a lugar nenhum. Mas tudo bem. Acho que é isso: é sobre tudo bem e sobre não pedir desculpas. Tudo bem não estar bem e tudo bem não pedir desculpas por isso. A gente precisa aprender a não pedir desculpas por sermos humanos, por errarmos, por colocar em primeiro plano a nossa própria sanidade. A gente precisa parar de pedir desculpas para fazer bem ao outro em detrimento de nós mesmos. A gente precisa parar de pedir desculpas por nem sempre estar bem. 

E tudo bem. 

5 de fevereiro de 2016

Esta não é uma história de amor

(Você pode ler este texto ao som de Colors, da Halsey, por motivos)


Dia desses, minha amiga contou a incrível história de amor que ela está tendo a sorte grande de uma vez na vida de vivenciar. Eu, que amo uma boa história de amor, não consegui deixar de sentir uma imensa felicidade ao vê-la tão feliz com alguém que parece amá-la na mesma intensidade que ela, depois de tantos anos esperando por isso. Daí resolvi, eu mesma, escrever sobre amor, daqui, de onde eu estou no momento. Aguente comigo.

Você era vermelho.

Há alguns meses, me apaixonei. Muito. Não foi de brincadeira, foi real. Depois de passar cinco anos perdidamente apaixonada por alguém que mal lembrava meu nome do meio, eu resolvi dar mais uma chance pra esse lance de paixonite. Mas o que veio pareceu mais uma tsunami e, quando eu vi, já estava mergulhada, com água por todos os lados, e muito, muito feliz por isso. Afogar-me em algo nunca pareceu tão certo e eu não fazia qualquer questão de lembrar como deveria fazer para respirar. 

E gostou de mim porque eu era azul.

Eu estava disposta a fazer tudo por aquele sentimento, que parecia tão certo, tão bom e tão finalmente ali, porque perdidamente é a única maneira com a qual eu sei amar qualquer coisa, quem dirá uma pessoa, com um coração dentro do peito, ali, tão real, de carne e osso. Eu não consigo fazer nada pela metade, tem que ser inteiro, inteiro mesmo, com tudo que isso traz consigo e até mais, se preciso for. Não sei olhar pro agora e pensar tão somente nele, por mais perigoso que isso possa ser, porque, há algum tempo, eu decidi viver sem medo. Eu me entrego pro futuro indeterminado, da cabeça aos pés, com uma esperança inabalável de que nele haverá algo incrível. Viver sem medo significa aceitar o futuro com tudo o que ele possa trazer, mas tendo dentro de mim um coração destemido, que me enche com planos e planos de muito amor, desses que deixam a gente acordada à noite, de lá pra cá na cama.

Você me tocou e, de repente, eu era um céu lilás.

Bom, enfim, lá estava eu, com meus planos e minhas ideias, aquela tsunami de sentimentos dentro de mim, convencida mais e mais a cada dia que eu estava certa, que tudo ficaria bem e que era real. Convenci a mim mesma de que era real e seria real por pelo menos algum tempo. Me despi de todo e cada receio ou convenção social. Fiquei nua, sem meias palavras e meios pudores ensinados desde o berço. Aceitei minha nudez e abracei-a como nunca antes, em todos os sentidos. Fiquei nua enquanto ele me tocava e um arrepio percorria todo o meu corpo, nua quando ia dormir e só via o rosto dele na minha cabeça, nua quando me pegava questionando qualquer parte de mim que ainda não se sentia suficiente. Nua de tudo. N-u-a, uma palavra que eu nem sequer contemplava antes. Senti como se naquele mundinho nosso, nada mais fosse necessário, pois tudo havia se tornado tão pequeno diante do contato da minha pele na dele. Tudo havia se tornado burburinho, todo o mundo estava em preto e branco.

E você decidiu que roxo não era pra você.

E daí, num belo dia, o burburinho se tornou um grito estridente, porque tudo começou a se despedaçar. "Estamos indo rápido demais", "Acho que isso não está funcionando" e "Você criou muitas expectativas", bem assim mesmo, como se o mundo de só duas pessoas houvesse se transformado em uma multidão com dedos apontados bem na minha cara. Por algum tempo, eu engoli aqueles dedos que apontavam pra mim e internalizei tudo. Aceitei que era tudo culpa minha, que eu era havia sonhado demais, que eu era muito imatura, que eu não havia dado a ele o que ele precisava, que minhas conversas com colegas do sexo masculino eram ofensivas (e que, portanto, ele tinha razão quando gritava comigo a respeito), que eu havia pressionado-o a fazer coisas que ele não queria, que eu havia deixado-o esperando por muito tempo, dentre tantas coisas mais. Pensei e repensei o que eu poderia ter feito para que ele não tivesse ido embora.

Demorou muito tempo até eu entender que a culpa não era minha e que um relacionamento é feito de duas pessoas. Se tem algo que aprendi com essa experiência, definitivamente, é que expectativas não são criadas sozinhas, nunca são. E poucas coisas são mais cruéis do que alimentar no outro um sentimento e, de uma hora pra outra, decidir que você já não-está-mais-tão-afim. Poucas coisas são mais cruéis do que deixar que o outro se apaixone por você sem que fique muito claro que você não-está-tão-afim. Porque não há nada de errado em não-estar-tão-afim e ir embora. Mas é absolutamente cruel deixar que as coisas aconteçam de uma maneira a vestir uma máscara e responder cada "Eu gosto mesmo de você" na mesma intensidade, no mesmo tom de voz, somente pra depois decidir não voltar mais.

Demorou muito tempo até eu entender que não era amor.

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Minha história não é a única neste pacote, não sou a diferentona do rolê. O roteiro é tão clichê neste mundo cada vez mais formado por pessoas descartáveis, impulsivas e medrosas. Impulsivas (ou seriam mentirosas?), sim, pois vomitam frases prontas sem realmente buscar entender se o sentimento está dentro delas ou não. Medrosas, sim, pois fogem de qualquer coisa com a qual não saibam lidar direito, o que inclui sentimentos. Essas pessoas seguem uma fórmula que conheço há pouco e muito me machuca: não consigo lidar com tal coisa = vou descartá-la. O imediatismo da era moderna atingiu os relacionamentos humanos de forma que (quase) ninguém mais ama ninguém plenamente; e quando digo plenamente, quero dizer: amar até os defeitos, aceitar que relacionamentos são construídos, aparar as arestas, e não simplesmente jogar no lixo todo um universo de possibilidades de sentimentos tão bonitos.

Pensei muito antes de escrever este texto, com medo de parecer ridícula ou intensa demais, de acabar virando piada de bêbado em mesa de bar, e não posso dizer que não estou machucada. Ainda estou, sim. Mas, tudo passa, mesmo as feridas mais abertas que a gente carrega como uma cruz. Tudo passa. E das minhas feridas cuido eu, da maneira que eu bem entender — se for pra virar piada, tudo bem também. Não vou me desculpar por como eu escolho consertar o que foi quebrado, como Meredith Grey muito certeiramente ensinou.

Outro dia, uma amiga me perguntou se eu ainda acredito que existe alguém aí para mim e para ela. 

Eu disse que sim. 

Porque decidi viver sem medo — e viver sem medo implica viver com um coração cheio de esperança, fé e amor.

Eu disse que acredito no amor e espero por ele, mas espero que ele venha de forma a me fazer bem, não a me colocar para baixo por ser exatamente como sou — porque, como eu disse: isso não é amor. Quero um amor que não me faça pedir desculpas. Quero alguém pra quem eu não precise constantemente justificar os motivos pelos quais sinto e sinto muito, tudo, o tempo inteiro. Quero alguém que não sinta medo do quanto eu amo. Quero alguém pra quem eu possa dizer que amo, amo sim, com a certeza que vem de dentro de mim, sem fingir que somente adoro ou gosto muito. Quero alguém que mergulhe de cabeça, sem medo de parecer bobo ou de amanhã encontrar uns arranhões no braço. Quero alguém para quem eu fique nua e que fique nu pra mim também, de todas as maneiras possíveis, sem fingir um beijo que nunca quis dar pra começo de conversa. Quero alguém que vibre na mesma intensidade que eu, alguém com quem eu entre em sintonia perfeita e alguém que esteja disposto não a ser uma âncora ou um bote salva-vidas, mas a se afogar junto comigo, sem me deixar de uma hora pra outra lá no fundo do mar sozinha.

She lost him.
But she found herself.
And somehow that was everything.

1 de fevereiro de 2016

A vida pode ser um açaí com leite em pó e leite condensado

Ou: o que ficou de janeiro, o famigerado primeiro mês de 2016

Fiquei encarando a tela por alguns minutos até pensar em como contaria algum apanhadão geral de janeiro, meio sem saber sequer o título. Mas ele veio e pareceu um sopro no meu ouvido. 

No finalzinho de dezembro (dia 30), viajei para uma vila de praia com alguns amigos. Alugamos uma casa lá em meados de 2015 e passamos metade do ano inteiro planejando tudo, desde compras de supermercado até ventiladores que seriam levados. Mas como eu sou a mestra do Na Hora Marco, Depois Prefiro Minha Cama™, cerca de duas semanas antes, estava eu caçando mil e um motivos pelos quais eu não deveria ir pra Itaúnas (este é o nome da vila, aliás): perguntei como era a casa, recebi uma foto e quase infartei ao ver que a casa não tinha grade/cerca/seja-lá-como-se-chame-isso-aí (e não houve "mas, relaxa, a vila é bem simples e todas as casas são assim mesmo" que me fizesse surtar menos); passei, então, a sair fazendo uma pesquisa de campo (nisso, devo ter perguntado para aproximadamente 10 pessoas coisas como: 1 - Mas como é lá? 2 - O que tem de legal pra fazer? 3 - A praia tem quiosques? 4 - À noite, o que vocês fazem? 5 - Onde fica a farmácia na vila?, chegando até a patética: "No meu lugar, você estaria animada pra ir?", como que torcendo pra que a resposta criasse em mim uma animação que eu não conseguia sentir sozinha); ainda frustrada e desesperada demais para pensar direito, passei as coordenadas da casa pro meu pai, e, pai que é pai entra na doideira junto (até incentiva-a!), então no segundo seguinte, Júlio, O Pai, estava procurando algum colega policial por lá — e eu tenho certeza de que até hoje esse tal colega sabe meu CPF, meu tipo sanguíneo, o meu apelido de infância, etc.; apenas porque vai que, né?

Tentei me sabotar por uns dias mais. Aí cheguei na fase da aceitação: vou, vai ser legal e, de qualquer forma, vai acabar rapidinho, não dá nem uma semana. Saí para comprar um biquíni e uns shorts jeans — e essa parte exigiu um esforço de outro mundo pra continuar na vibe vou-vai-ser-legal-e-acaba-rápido, porque autoaceitação não trabalhamos desde nunca, apesar de falar tanto sobre ela e sua importância (volte mais tarde, porque aqui o lema é: faça o que eu falo, nunca o que eu faço). Quando o dia finalmente chegou, eu fiquei chorando de nervosismo e, às 3 da manhã, acordei a minha mãe, em uma crise de pânico (é sério isso), aos prantos, dizendo que algo dentro de mim me avisava pra eu não ir. Eu sigo muito a minha intuição e eu realmente achei que algo estava me dizendo pra deixar aquela coisa toda de lado. Eu pago tudo, mãe, reembolso vocês, mas, por favor, ME DIGA QUE TUDO BEM SE EU NÃO FOR MAIS!, eu disse, mais uma vez esperando que a resposta da pessoa com quem eu estava falando fosse me dar algum tipo de conforto. Mamãe pegou a minha mão, ainda com os olhinhos cheios de um sono interrompido, e disse: Filha, vá. Divirta-se. Vai ficar tudo certo. Se detestar, liga pra gente e nós vamos na hora te buscar. 

Apesar de achar sacanagem fazer meus pais viajarem por 4 horas apenas pra me buscar, porque eu, de forma mimadíssima, não estava sabendo lidar com nada™, aceitei. Eu sei que muito provavelmente nunca pediria pra eles irem, então era uma decisão meio fajuta, mas aceitei mesmo assim. Mãe é mãe. Mãe sabe das coisas, todo mundo sempre disse isso.

Daí ok, acelera pra parte em que, depois de 4 horas de viagem, chegamos à vila e fomos recepcionados por um cara com um facão preso na calça jeans, única vestimenta que ele estava usando. Ele entrou na frente da nossa van e fez sinal para pararmos. Meu coração acelerou, meu corpo inteiro ficou paralisado da cabeça aos pés na hora, e eu não sei nem o que mais eu fiz além de olhar pros meus amigos em pânico, meio que perguntando, com os olhos, se eles estavam vendo o mesmo que eu. Pensei: É isso, bonita, bem feito, é isso que acontece quando você não ouve à própria intuição: VOCÊ MORRE. 


Surtei um pouco e fiz todo mundo surtar junto, apenas para descobrir depois que o cara na verdade estava reivindicando um direito da comunidade que pedia há anos por um quebra molas pra evitar acidentes. O medo se transformou em, como disse meu pai, numa tentativa muito inovadora™ de me acalmar, uma aula particular de sociologia e Direito no concreto, seja lá o que isso queira dizer. 

No final das contas, Itaúnas não era muito diferente do que eu esperava (depois de ter feito aquela longa pesquisa de campo): muitas drogas, muita galera legalize, praia, dunas de areia, bebida o dia inteiro e reggae. Eu sei, não parece comigo. Não parece mesmo. Eu não bebo, não uso drogas, detesto (ou costumava detestar, até os 19 ou 20 anos) praia e areia. E não tem como detestar essas coisas em Itaúnas, onde tem areia até embaixo da sua cama, se você olhar bem. Eu aceitei entrar nesse barco porque tudo que faço com as minhas amigas acaba sendo legal ou, ao menos, história pra contar. Essa viagem virou história legal pra contar, porque serviu de aprendizado.  

E todo o resto do mês é história de como eu lidei com toda essa novela do meu final de 2015, basicamente.

Por que o título?, vocês perguntam. Em Itaúnas, eu tomei açaí pela primeira vez. Mas, assim, esculhambado mesmo: cheio de leite condensado e leite em pó — aproveito para pedir perdão adiantado pra qualquer pessoa que leia isso e pense que sou herege. Eu sempre odiei açaí. Sempre. Tinha pavor, odiava, não entendia o hype e julgava muito quem escolhia açaí perto da barraquinha de sorvete. Ainda prefiro sorvete? Sim. Mas o açaí tava gostoso também. O açaí não tem culpa dos meus pensamentos infundados sobre ele, muito menos da minha aversão criada num universo paralelo. Talvez a vida seja possa ser um açaí desses, basta a gente deixar os surtos pra lá, botar os dois pés no chão, ouvir a mãe e viver a vida um pouco mais, pensando um pouco (ou, no meu caso, BEM) menos. Talvez a gente só precise pegar dois limões, jogar no meio da rua e pedir um açaí na barraquinha do lado de casa. 

Mas com bastante leite condensado e leite em pó mesmo, moça. Gelado, por favor. Tá bem quente por aqui e tem areia no meu pé.

I don't know where "there" is, but it's somewhere, and I hope it's beautiful.

28 de janeiro de 2016

Pleno 2016 e eu começando um blog

Hello, stranger. 

Ou algo do tipo.

Cá estamos nós de novo, mais uma vez dizendo que vamos voltar pra essa novela de ter e manter um blog ativo. Eu sei exatamente os motivos pelos quais resolvi voltar a escrever, sei os motivos pelos quais escolhi fazer isso numa plataforma nova, etc. Talvez eu devesse começar explicando. 

Bom, quem acompanhava o meu blog anterior (RIP), sabe que eu já tive algumas crises existenciais com ele. Meu blog viveu comigo por altos e baixos, passou pela treva do Ensino Médio e me causou algumas dores de cabeças de pessoas-que-nada-sabem-de-nada tirando sarro do nome dele. Passei o colegial inteirinho sendo chamada de Ela Rafaela, e eu acho que isso talvez faça com que eu volte àquele período, que não foi o melhor, e reviva algumas das piores lembranças da minha vida. Não estou aqui dizendo que tenho rancor do meu blog anterior, de forma alguma, a gente aprendeu um monte de coisas junto — tanto é que eu jamais pensaria em excluí-lo. Só que hoje estou em um outro lugar, o qual não cabe mais nele. Cresci agora sou mulher e acho que criar um blog novo é uma forma de marcar isso, de uma vez por todas. Sou uma outra pessoa e mereço um outro lugar, novinho em folha, para escrever sobre essa outra pessoa, com outro óculos e outro ponto de vista. O clima aqui é ótimo, o ar que eu respiro é puro e, ufa, ainda bem que cheguei aqui.

Como nada é tão simples na vida de quem não manja de layout e todos os paranauês que ter um blog envolve, eu got by with a little help from my friend e resolvi pedir ajuda pra Giu. Fácil não foi, mas Amanda Palmer me ensinou que tudo bem pedir, ainda mais quando a pessoa do outro lado da linha é uma das minhas melhores amigas com todas as implicações que a expressão carrega. A Giu riu da minha cara, "não acredito que você ficou com vergonha de me pedir isso, sua creiça!", e arrumou esse layout maravilhoso pra mim em menos de 24 horas (sério, essa mulher é sem precedentes). Minutos depois, conversando com ela, foi que eu decidi começar do zero e dar este título — que ficou bem parecido com o dela, de tão bichas que somos. 

Not your honey pie é o título dessa minha nova casa por motivos de "My Song 5", das HAIM, sim, mas também porque acho que expressa muito bem o meu atual momento da vida, o lugar no qual estou. Não sou a tortinha de mel de ninguém, não levo mais desaforo pra casa e cansei de colocar minha felicidade nas mãos de pessoas-que-nada-sabem-de-nada. Enfim, sempre que eu quero me lembrar de tudo isso, de como cheguei aqui e de como precisei andar pelo inferno pra me salvar, eu coloco essa música pra tocar, junto com a minha armadura de bad boss e toco a minha vida. Geralmente funciona, quase sempre, entre altos e baixos.

No mais, acho que é isso? É uma aventura, mas é das melhores. Espero que daqui a uns meses eu não olhe para este blog e pense que foi um desperdício de dinheiro aquele que usei para pagar pelo domínio. Tomara que não. 

Sei lá, é a Gillian Anderson, usando vermelho e dando boas vindas. Quer mais o que?

Tema base por Maira Gall | Edição por Giuliana Motyczka