9 de fevereiro de 2017

Um, dois, três...

Vitória, sexta-feira, 10 de fevereiro. São 3:22 da manhã. Perdoe, desde já, as minhas lamentações infundadas. Eu sei, não é pra tanto. Eu sei, nem tá tão ruim. Eu sei, o Exército tá nas ruas — passou um carro aqui; eu consigo sentir o vento, mas não sinto frio. Minha pele está em brasa. Já tem uns dias que não durmo direito. Cinco ou seis, acho que perdi as contas. As noites mais longas chegaram por aqui e cada novo dia parece um presente que enviaram sei lá de onde, sem embrulho e daqueles que a gente deixa no cantinho, sem mexer. Não tem cor, não tem luz, só tem o nada. Um quarto cheio de um vazio preenchido pelo nada. As horas se arrastam, tic toc tic toc, e nenhum piu lá fora, tic toc tic toc. Silêncio. Escuridão. A gente deixa pra lá, né? Vai deixando pra depois. Depois a gente se vê, a gente vai se falando, vamos escolher o lugar, a hora, vai me avisando. Hoje? Hoje não dá, não, tenho que resolver umas coisas. Amanhã tem jogo, também não dá. Semana que vem, com certeza. É estranho observar, agora, tudo que eu já deveria ter feito e adiei. Tem um gosto amargo, como um remédio que demora demais pra descer pela garganta. Às vezes, nem desce; fica ali mesmo, travando tudo. Amargo pra mim, ceifador para quem tem o futuro adiado para nunca, morre nas mãos de quem não tem nome ou rosto, morre e passa a ser só mais um dígito na lista oficial.  Eu tô quase me formando, tenho 22 anos, deveria ter algumas certezas nessa vida, mas eu não sei de nada. Eu nunca soube de nada. Eu olho em volta, vejo as paredes do meu quarto, vejo a segurança dos meus privilégios, as pequenezas das coisas que valorizo além da conta, e percebo o quão miúda e impotente sou. Sempre me disseram que eu era forte, alguns me pediram a fórmula. A verdade é que eu vivo desmontando. Desmonto uma, duas, três vezes por dia. O tempo todo. Desmonto atravessando a rua, desmonto passando direto pelo cara dormindo na calçada ao lado dos Correios, desmonto a cada página de jornal sem cor, desmonto quando ouço ódio fantasiado de boa intenção, desmonto a cada briga de ego de quem sabe mais contra quem sabe as respostas até das próprias dúvidas; desmonto quando me refaço, pedacinho por pedacinho. Por vezes, engulo o choro, finjo que nem vi, passo um café; ou digo que vi e grito pro mundo inteiro que vi, que vi sim, que estava ali e não estava certo, que estava longe de ser certo. Não há meio termo: ou guardo pra mim ou quero explodir e quero que o mundo venha junto. Eu quero explodir e quero que explodam comigo. Eu quero explodir e quero que explodam comigo. EU QUERO EXPLODIR E QUERO QUE EXPLODAM COMIGO. E ninguém explode. Ninguém nota. Ninguém vê. Ninguém diz. Morreu mais um, você ficou sabendo? Sim, fiquei. Um absurdo. Pois é, menina, um absurdo. Esse governador é um ditador. É um ditador mesmo, de fato. Semana que vem tem caminhada pela paz, vou de branco. Beleza, vou contigo, passa lá em casa e vamos de bike. Ei, isso não está certo, isso tá errado. Isso não faz sentido. Você não vê? Não se lembra? É 2017 e pode ser que a noite volte a ser regra. Não, não dá. Você não vê? Eu quero explodir e quero que explodam comigo. Mas daqui a uns dias tem Carnaval. Tem Carnaval, vou de sereia, vou jogar glitter na cara e beber muita vodka. Eu só quero poder ir à padaria, daqui a uns dias tem Carnaval. Eu só quero poder ir à academia, daqui a uns dias tem Carnaval. Tem Carnaval, cara, eu vou Incrível Hulk. Incrível, eu não vou, não. Eu não sei se vai ter acabado — e, se acabar, vai acabar de fato? Acabar pra quem? Acabar pra quando? Acabar pra onde? Eu não sei, não. Eu quero explodir e quero que explodam comigo. Eu só quero explodir. Agora. Não daqui a pouco, não semana que vem, não daqui a um mês. Minha pele está em brasa, e faz frio lá fora. Eu não sei preencher o nada. Eu queria saber, Deus, como eu queria saber. Como eu queria ser forte para os que não têm voz sequer para sussurrar. Como eu queria ser grito que preenche o nada. Como eu queria não ser pequena e não ter tanto medo. Mas o medo que tenho é o medo que me faz explodir. É o medo que me faz chorar. Também é o medo que me faz erguer o punho contra tudo que sei que não está certo. Esse mesmo medo corrói o meu peito, que pulsa, que pula, que para e repara que eu sempre fui luta, que eu continuo sendo luta, que muita gente ainda é luta e que é em frente que se caminha. É resistindo que se (r)existe. É explodindo que se refaz. Eu quero explodir e quero que explodam comigo. Agora.


12 de outubro de 2016

#Previously on: 09.16

Daí que resolvi tentar (pela milésima vez) voltar a escrever no blog. É um momento bom, me faz bem, e por que não, né mesmo? Conhecendo novos blogs por aí, decidi entrar na onda de recapitular o mês que passou, e talvez este se torne (caso a coisa ande) um #quadro aqui no blog — apesar de #quadro ser uma coisa tão prepotente. Tenho a minha newsletter, mas até hoje só enviei uma vez e francamente ainda não sei se sirvo pra isso. Mal mal sirvo pro blog, então...

Setembro foi um mês agitado, de idas e vindas, de uma montanha-russa que parece só ir pra cima, mas que desce lá no fundo do poço e depois volta. Mais ou menos assim. Começou muito bem, com 22 anos e indo pra rua gritar que é golpe, sim, senhor, e é um golpe acima de tudo patriarcal. Também fui ao cinema ver um filme meio bosta, sobre o qual falarei no final do post (este #quadro tem #sub-quadros e eu nunca me senti tão blogueira do século XXI). As aulas de italiano estão indo muito bem, sábado de manhã é hora de rir muito enquanto falamos "ciao" e "salve" com fluência que só a gente enxerga. E Vitória, claro, continua linda, entre tropeços e vitórias.


Setembro também foi o mês em que eu finalmente ganhei um Vinicius pra chamar de meu e abraçar (nos poucos momentos em que o Ozzy deixa), presente que meu irmão trouxe na visitinha de um final de semana. Também veio um Tom, mas deixei pra vovó. Aliás, no dia 23, uma sexta-feira à noite, comemoramos os 78 anos de vida da vovó Zô. Foi legal, tema anos 60, ela pôde ver bailarinos dançando Sinatra e pôde, ela mesma, dançar Sinatra, como fazia aos 20 e poucos sob os olhares feios do pai. É uma bênção que vovó ainda esteja aqui conosco, depois das dificuldades de não sei quantos AVCs etc. e tal, então fizemos questão de proporcionar uma festona pra ela — e ela, claro, amou. 

E o pixo sobre o Lula talvez não devesse estar perto da foto de vovó (espero que ela não veja este blog), uma vez que ela, no íntimo, continua desejando que ele desapareça. Mas, Lula, tamo junto: os slides foram um show de horrores — não tenho como provar, mas creio que os indícios são fortes.


Por fim, setembro também foi um mês cheio de atividades acadêmicas e preparações para as provas de outubro. Tive a oportunidade incrível de participar de uma aula da pós-graduação, porque sou assim, intrometida. A aula foi ministrada por um dos grandes nomes da Criminologia Crítica brasileira, e eu ainda consegui um autógrafo. Tímida, pensei que não conseguiria. Pedi ao Thiago, que me apresentou como: "Rafa, uma militante pelo abolicionismo penal e pelo feminismo", coisa que, só de escrever aqui, já fico feliz. Aparentemente, sou Rafa — e assim mesmo veio a dedicatória. Por outro lado, a monografia, coitada, anda a passos lentos e cada vez mais distantes: só tenho 7 páginas até agora e pouquíssima leitura feita. E como este blog é um espaço em que eu falo sobre tudo, nada mais justo do que assumir essa vergonha. Sinceramente não sei se conseguirei entregá-la até o dia 16 de novembro, mas cá estamos nós, sobrevivendo. 

Ah, eu também cortei o cabelo. Era pra ser um long bob, mas ficou menor do que o planejado — e tudo bem. Cabelo cresce de novo e é legal mudar de vez em quando. Faz bem pra renovar as energias e o amor próprio, dizem. Vai vendo.


Tô amando:
Pornografia de vingança: contexto histórico-social e abordagem no direito brasileiro, Vitória de Macedo Buzzi
Esse livro eu comprei há menos de uma semana, no II Congresso Sul Brasileiro de Direito, ou seja, desculpa, mas é algo de outubro. Ainda assim, queria recomendar logo a leitura, visto que é sobre um assunto relativamente novo e pouco abordado nacionalmente. Trata-se da tese de conclusão de curso da Vitória, pro curso de direito da UFSC e, portanto, traz diversos dados frutos de ampla pesquisa e questionamentos fundamentais.

VEDO do Literatour TV, Tary Zottino no youtube
Outra coisa que tá rolando em outubro, mas que eu já tô colocando aqui — até porque, quando for falar de outubro, o vlog everyday October da Tary já não existirá mais. Tary é uma das minhas melhores amigas, dona de um blog incrível e desse canal no youtube sobre literatura, cultura pop e outras coisinhas mais. Sou fãzoca e acho que todo mundo deveria conhecer. Prometi que eu mesma uma hora entrarei na onda — estamos esperando o furacão monografia passar. Enfim, tem vídeo todos os dias, entre tags e leituras recentes, com reflexões bacaninhas aqui e acolá. Só vejam.

Conheci o site da Juliana através de um vídeo da Tatiana Feltrin e me apaixonei completamente. Comprei um marcador de páginas da Gina, de Harry Potter, jurando que sou eu mesma no desenho (vai, lembra) e abrindo mão da Hermione para tanto. Mas o trabalho da Juliana é feito com tanto carinho, tanto cuidado, que eu mal vejo a hora de ter mais alguns golpinhos disponíveis pra fazer a próxima compra. 

TAG studyspo, no Tumblr
Sinto que passo longos minutos vendo essa tag no tumblr, de modo que cheguei até a criar um tumblr só meu dedicado a estudos. Eu tenho sol em virgem e não vou me desculpar por amar organização de estudos etc. e tal. Além disso, são diversas dicas e imagens que te dão vontade de sentar a bunda na cadeira e estudar — e ainda que nem sempre funcione, pelo menos a gente tá fazendo um esforcinho, né?

Não curti:

Quando as luzes se apagam, do diretor David F. Sandberg
Eu já vi alguém detonar completamente uma premissa excelente, mas como fizeram neste filme, francamente, não me lembro. O roteiro é péssimo, as atuações são forçadíssimas (mas o roteiro não colabora, fique o adendo), mal mal a fotografia salva. E isso é lamentável, já que o curta em que o filme foi baseado é muito bom, do tipo que te deixa com vontade de não dormir de luzes apagadas por meses e que se dane a conta de energia elétrica. Fui ao cinema esperando sair com sensação do peito acelerado, mas a verdade é que não consegui sequer ver o filme até o fim: saí no meio e fui tomar um sorvete. Gastei meu dinheiro no ingresso quando poderia e deveria ter comprado um Big Mac. Não entendo como isso teve nova 6.6 no imdb, mesmo.


...E por enquanto, acho que é isso. Prometo que irei me esforçar pra escrever ao longo de outubro e não deixar pra voltar aqui só pra mais um previously on. Bisou bisou! 
Tema base por Maira Gall | Edição por Giuliana Motyczka