25 de junho de 2017

Vermelho como sangue, verde como folha

Eu costumava pensar que tudo que havia no mundo era a escuridão. 

Tereza, com quem costumo trocar confidências, sempre me diz que o mundo é muito mais do que isso. Ela acorda cedo, faz um café e prepara a mesa. Pergunto a ela qual é a cor do café. Escuro, ela diz, mais escuro que o céu da meia-noite. O céu da meia-noite deve ser azul escuro, o café é marrom, mas não sei ao certo se Tereza consegue diferenciar as cores. Diz-me que largou a escola na sexta série. "Nunca acredite quando te disserem que estudo é o que há de mais importante no mundo", disse. Algumas das pessoas mais estudadas são as que menos sabem da vida. 
Eu sei diferenciar as cores, mesmo sem tê-las visto algum dia. Em sonho, vejo todas. Vejo azul, vermelho, amarelo. Mas a minha preferida é a cor verde. 
Anna diz que verde é uma cor bonita, é a cor de um de seus olhos. O outro é azul, foi o que ela me disse. Quando penso na figura de Anna, penso em uma figura bem diferente. Anna tem os cabelos castanhos, e quando pergunto qual é o tom do castanho, não sabe descrever com precisão. Tem medo de me magoar. Deixa de bobagem e diz logo, eu sempre falo. Castanho como quando falta luz, diz Anna. Castanho como quando falta luz? Castanho como o céu azul da meia-noite? "Não, boba, castanho como quando faz sombra." E sombra, o que é? Sombra é quando falta luz, oras. E a luz, de qual cor é a luz?

Make all of the kids in the choirs sing woo-hoo
Maybe all this is the party
Maybe the tears and the highs we breathe
Maybe all this is the party

Quando fiz 15 anos, tive meu primeiro beijo. O nome do menino era Pedro. Eu gosto do nome Pedro, parece um nome forte. A sonoridade do nome Pedro faz meus ouvidos colocarem meu corpo em estado de alerta, como um comando de um general. E foi exatamente como me senti quando ele falou meu nome pela primeira vez. Curioso como essas coisas funcionam, quando tem que ser. O nome dele fazia meu sangue mandar uma mensagem bem clara por toda a minha extensão, uma espécie de corrente elétrica que costumava fazer com que eu pulsasse freneticamente. "Suas mãos são quentes, seu corpo todo é", disse-me uma vez. Não, não é. Era a sonoridade do nome Pedro. Mas Pedro, eu sempre soube, era um menino. 
Quero te levar para visitar Paris, disse-me Matheus, enquanto eu puxava o zíper do meu próprio vestido, apressando o passo para não perder o compromisso no trabalho. O metrô estaria cheio, e eu teria que correr para chegar a tempo de comprar um café escuro como o céu da meia-noite antes de subir os andares daquele prédio cheio de gente cinza. Não posso visitar Paris, tenho coisas a resolver, tenho amigos esperando por mim na semana que vem. "Não precisa ser na semana que vem, temos todo o tempo do mundo para visitar Paris", respondeu ele, mesmo sabendo, no fundo, que não era verdade. Matheus, diferente de Pedro, não tinha a aparência de um menino, o que não fazia com que ele deixasse de ser um. Meninos tendem a acreditar que têm todo o tempo do mundo, pois é o que aprendem desde cedo. Não há o que temer quando se é invencível. Tereza uma vez me disse que meninos pensam mais com a cabeça de baixo. 
Anna acordou no hospital após mais uma tentativa de suicídio. Quando tínhamos 11 anos, certa vez me disse que o vermelho era a cor do sangue. Sangue é vermelho, eu sei, eu sinto. O vermelho que pulsa em mim, pulsa nela também. Vermelho da cor do sangue. Por algum motivo, o quarto do hospital tem cheiro de vermelho. Pergunto a ela qual é a cor do quarto. Ela diz que é branco. Sombra é quando falta a luz. E a luz, Anna? De qual cor é a luz?

But you're not what you thought you were
But you're not what you thought you were

Não me atrasei para a reunião. É outono, eu sei porque sinto as folhas no chão quando caminho sobre elas. É como caminhar sobre um mar, um mar suave e muito sutil. É um mar que me lembra que estou viva. As folhas secas têm a cor laranja, laranja é a cor do recomeço. As folhas ficam laranja para depois tornarem a serem verdes, disse Tereza, mas não faça mais perguntas. Verde é a minha cor favorita. Prefiro pensar que as folhas verdes são para sempre, e por isso não as sinto. Não consigo senti-las quando estão no chão, mesmo sabendo que estão ali. Só as folhas laranjas fazem barulho quando caminho até o trabalho. Nem sempre ouço barulhos. Às vezes são só uns cachorrinhos passeando com os donos, uns carros impacientes freando no semáforo, buzinas, freios e a fila do banco cheia de gente falando palavras de baixo calão. Isso tudo é cinza, como vejo. Gente cinza por todos os lados.
Conheci Paris sem Matheus. Matheus sumiu, casou-se com uma norueguesa e, da última vez que o encontrei, havia acabado de trazer uma menininha ao mundo. Ruiva, como a mãe. Vermelho da cor do sangue. Anna gostaria de saber. We'll always have Paris. Conheci Paris, fui ao Louvre e atravessei a Pont Neuf umas 3 vezes num mesmo dia. A Torre, não visitei. Manter os pés no chão sempre fora mais a minha praia. Manter o pés no chão é a única forma de saber que estou aqui. Mesmo andar de bicicleta me causa uma certa agonia, não por não saber aonde estou indo, mas por não sentir o chão firme. O vento, o vento eu sinto. Mas o vento eu não sei definir como o concreto do chão. Sinto falta de Anna. Sinto. 

I'm a liability
Liability
Much for me

Ano passado um estranho me parou na rua e pediu-me um abraço. Não soube dizer não. Ele me puxou com a mesma delicadeza de quem mexe pela primeira vez nos objetos de porcelana da avó, sem emitir qualquer som. Soltou-me após cerca de 5 minutos. O tempo é relativo. Você ainda está aí?, eu perguntei. "Eu estou aqui". Não sei por quantos minutos ele continuou no aqui. Sei que deve ter demorado um pouco, pois o calor do corpo dele ainda estava preso no meu. Ainda não sei o nome dele. Mais nada foi dito por mim. Mais nada foi dito por ele. O tempo é relativo. Você ainda está aqui? Eu estou aqui. 
Eu costumava pensar que tudo que havia no mundo era a escuridão. Passava todos os dias assim, afinal. À noite, fechava os olhos e ia dormir, era a minha única oportunidade de sonhar em cores. Branco, vermelho, laranja, verde. Qual é a cor da luz? Quando tem luz, não tem sombra. A sombra é quando tudo fica escuro. Escuro é como eu vejo. No escuro existem monstros, porque monstros não gostam da luz. E a luz, de que cor é a luz? Penso num campo verde, porque sei que verdes são as folhas, na maior parte do tempo, que é relativo. Penso que estou neste campo e que Anna ainda sabe que vermelho é a cor do sangue, que Tereza sabe que o café não é azul e que Pedro não esqueceu a sonoridade do meu nome. Nome é um nome muito bonito. Verde é como eu vejo. E laranja. E branco. E vermelho. É como eu vejo. 
Você ainda está aqui? 

Liability.



9 de fevereiro de 2017

Um, dois, três...

Vitória, sexta-feira, 10 de fevereiro. São 3:22 da manhã. Perdoe, desde já, as minhas lamentações infundadas. Eu sei, não é pra tanto. Eu sei, nem tá tão ruim. Eu sei, o Exército tá nas ruas — passou um carro aqui; eu consigo sentir o vento, mas não sinto frio. Minha pele está em brasa. Já tem uns dias que não durmo direito. Cinco ou seis, acho que perdi as contas. As noites mais longas chegaram por aqui e cada novo dia parece um presente que enviaram sei lá de onde, sem embrulho e daqueles que a gente deixa no cantinho, sem mexer. Não tem cor, não tem luz, só tem o nada. Um quarto cheio de um vazio preenchido pelo nada. As horas se arrastam, tic toc tic toc, e nenhum piu lá fora, tic toc tic toc. Silêncio. Escuridão. A gente deixa pra lá, né? Vai deixando pra depois. Depois a gente se vê, a gente vai se falando, vamos escolher o lugar, a hora, vai me avisando. Hoje? Hoje não dá, não, tenho que resolver umas coisas. Amanhã tem jogo, também não dá. Semana que vem, com certeza. É estranho observar, agora, tudo que eu já deveria ter feito e adiei. Tem um gosto amargo, como um remédio que demora demais pra descer pela garganta. Às vezes, nem desce; fica ali mesmo, travando tudo. Amargo pra mim, ceifador para quem tem o futuro adiado para nunca, morre nas mãos de quem não tem nome ou rosto, morre e passa a ser só mais um dígito na lista oficial.  Eu tô quase me formando, tenho 22 anos, deveria ter algumas certezas nessa vida, mas eu não sei de nada. Eu nunca soube de nada. Eu olho em volta, vejo as paredes do meu quarto, vejo a segurança dos meus privilégios, as pequenezas das coisas que valorizo além da conta, e percebo o quão miúda e impotente sou. Sempre me disseram que eu era forte, alguns me pediram a fórmula. A verdade é que eu vivo desmontando. Desmonto uma, duas, três vezes por dia. O tempo todo. Desmonto atravessando a rua, desmonto passando direto pelo cara dormindo na calçada ao lado dos Correios, desmonto a cada página de jornal sem cor, desmonto quando ouço ódio fantasiado de boa intenção, desmonto a cada briga de ego de quem sabe mais contra quem sabe as respostas até das próprias dúvidas; desmonto quando me refaço, pedacinho por pedacinho. Por vezes, engulo o choro, finjo que nem vi, passo um café; ou digo que vi e grito pro mundo inteiro que vi, que vi sim, que estava ali e não estava certo, que estava longe de ser certo. Não há meio termo: ou guardo pra mim ou quero explodir e quero que o mundo venha junto. Eu quero explodir e quero que explodam comigo. Eu quero explodir e quero que explodam comigo. EU QUERO EXPLODIR E QUERO QUE EXPLODAM COMIGO. E ninguém explode. Ninguém nota. Ninguém vê. Ninguém diz. Morreu mais um, você ficou sabendo? Sim, fiquei. Um absurdo. Pois é, menina, um absurdo. Esse governador é um ditador. É um ditador mesmo, de fato. Semana que vem tem caminhada pela paz, vou de branco. Beleza, vou contigo, passa lá em casa e vamos de bike. Ei, isso não está certo, isso tá errado. Isso não faz sentido. Você não vê? Não se lembra? É 2017 e pode ser que a noite volte a ser regra. Não, não dá. Você não vê? Eu quero explodir e quero que explodam comigo. Mas daqui a uns dias tem Carnaval. Tem Carnaval, vou de sereia, vou jogar glitter na cara e beber muita vodka. Eu só quero poder ir à padaria, daqui a uns dias tem Carnaval. Eu só quero poder ir à academia, daqui a uns dias tem Carnaval. Tem Carnaval, cara, eu vou Incrível Hulk. Incrível, eu não vou, não. Eu não sei se vai ter acabado — e, se acabar, vai acabar de fato? Acabar pra quem? Acabar pra quando? Acabar pra onde? Eu não sei, não. Eu quero explodir e quero que explodam comigo. Eu só quero explodir. Agora. Não daqui a pouco, não semana que vem, não daqui a um mês. Minha pele está em brasa, e faz frio lá fora. Eu não sei preencher o nada. Eu queria saber, Deus, como eu queria saber. Como eu queria ser forte para os que não têm voz sequer para sussurrar. Como eu queria ser grito que preenche o nada. Como eu queria não ser pequena e não ter tanto medo. Mas o medo que tenho é o medo que me faz explodir. É o medo que me faz chorar. Também é o medo que me faz erguer o punho contra tudo que sei que não está certo. Esse mesmo medo corrói o meu peito, que pulsa, que pula, que para e repara que eu sempre fui luta, que eu continuo sendo luta, que muita gente ainda é luta e que é em frente que se caminha. É resistindo que se (r)existe. É explodindo que se refaz. Eu quero explodir e quero que explodam comigo. Agora.


Tema base por Maira Gall | Edição por Giuliana Motyczka