18 de janeiro de 2019

Dói sem tanto


Hello, you.

Hoje é sexta, chove em Lisboa e eu não sei de ti. Já há alguns meses decidi seguir a minha vida. Veja, vim parar d’outro lado do mundo. Há pouco mais de 7 mil quilômetros entre nós, e, acredite, eu nem precisava de toda essa distância física. Outro dia uma senhora leu as cartas e você já não aparecia. Disse-me ela: “ele já não aparece, é como se suas vidas já não estivessem conectadas”. Hoje vejo com mais clareza que mesmo sentado ao meu lado você não estava mais ali. Construímos um muro entre nós com o que restou dos cacos do nosso amor maltrapilho e esse muro eu já não sei mais como quebrar.  

Perguntam-me como tem sido, e tem sido ótimo, é claro. Aprendi uma porção de coisas sobre mim mesma. Envelheci 30 anos em pouco mais de 4 meses. Larguei quem eu era no dia 21 de setembro de 2018 e desde então sou só a carcaça numa vida nova. Consigo sentir mais carinho pela vida e, consequentemente, por ti também. O e-mail que mandei no mês passado e do qual jamais recebi resposta já foi relido sei lá quantas vezes. Tu mesmo só deve ter lido uma vez, eu sei. Mas o que sinto já não exige ressonância em ti. Eu não preciso de uma resposta pro que é inominado. Não preciso de adesão ou de confirmação em ti: meus sentimentos são meus, sempre foram, e deles cuidarei com carinho até que a vida dê um jeito. Fato é que nem eu mesma sei o que sinto. E nessa confusão eu já me reconstruí muito. Queimei fotos, rasguei cartas e agora creio que só me resta encarar o muro. Sabe Deus se algum dia irá cair. Sabe Deus se algum dia eu irei querer que ele caia.

O último texto que escrevi publicamente pra ti se chama “Tua”, é o último texto publicado neste blog. E desde então já fui tua tantos dias, tantas vezes. Ainda carrego memórias muito vívidas e muito nossas de todas as vezes que fui tua. Lembro de tudo. Fui tua e nunca de mais ninguém. Escrevi aquele texto ouvindo Anavitória. Tu decidiu se (re)aproximar quando eu te mandei uma mensagem no meio d’um show delas. “Você podia estar aqui com fulana”.
“Eu queria estar aí com você”. Cor de Marte.

Eu me lembro.

Quarta irei num show delas. Escrevo este texto também ao som delas, mas com outra música e outro tom. Depois de ter sido tua. Sem saber se ainda sou ou quero ser. Sem saber da vida. Sem saber de ti. É como eu lhe escrevi. Você foi o meu grande amor. Eu me lembro. Mas agora estamos fadados a ser livres. E sabe Deus o que é que vai nos acontecer.

13 de julho de 2017

Tua

Já faz alguns anos, pensei ter te visto no metrô da Barra. As mãos no bolso, passos largos em direção a lugar nenhum. A tua silhueta não esconde o que você foi, eu lembro bem dela. Foi com ela que você foi. Eu me tornei especialista em decorar teus pequenos detalhes. Os olhos verdes cor-de-mato e a barba por fazer, a minha parte favorita. Tua barba me fazia cócegas, e eu costumava rir até meus músculos doerem. Tu roçava ela em mim como se pudesse fazê-lo pelo resto dos teus dias. Como se quisesse que assim fosse. Como se o contato entre os nossos corpos — e somente ele — gerasse uma sinergia necessária para nossa subsistência até o fim. 

Houve um tempo em que eu pensei que a sua sombra andasse atrás de mim, como se fundida na minha. Como se fôssemos um. Dia desses desisti de olhar para trás; tu não estaria mais lá. Muito por minha culpa, muito pelo nosso timing. Nosso timing não foi o certo, é o que repito todos os dias. Não fui eu, não foi tu. Quando você virou as costas e saiu, não fui eu, não foi tu, porque eu e tu não somos mais o que um dia fomos, e o que somos não é o que seremos. É bem verdade que antes de te conhecer eu não pensava assim, assim como é verdade que muitas das minhas verdades tu fez com que caíssem por Terra. Eu passei horas ouvindo tu falar, com paixão, das coisas que tu estudou, leu, pesquisou. Tu falava tanta bobagem, mas falava com tanta vontade, que o timbre da tua voz mudava. Virava timbre de quem canta. 

Mas você não está. Você foi. E eu decorei a tua silhueta.

A mim resta aprender a amar mesmo o amor que não mais está. O amor que está em mim, mas que tu desconhece ou conhece, mas ignora. Não responde, deixa no mudo. Deixa que os dias passem. Deixa que os anos corram. Amar o amor da ausência. Alguns dias, gosto de plantar flores no jardim da varanda de casa. Plantei uma rosa vermelha, sugestão tua. Você sempre gostou do vermelho dos meus lábios. A rosa desabrochou e eu queria te mostrar, mas você não está. Eu, que estou, amo como quem ama o amanhã. Aprecio o amor em mim independente do amor que estava (está? esteve?) em ti. Descobri que a melhor forma de amar é não esperando amor em troca. Dizem que amor sem reciprocidade é sinônimo de sofrimento. A mim parece que as pessoas não sabem amar, não aprenderam ainda. Eu não li um livro a respeito, não me foi ensinado na escola, mas ouvi no timbre da tua voz o som que o amor tem quando é livre.

O amor que sinto por ti está comigo quando tranco a porta do meu quarto para longas horas de prazer autossuficiente; é um amor que alimenta a luxúria. Ele está comigo no bolso da calça quando fecho o zíper e me despeço do cara que conheci no bar; é um amor que predomina sobre o que não pretende ficar. Está comigo quando o desejo não cabe mais, quando a vontade de escapar faz com que as lágrimas deixem o rosto em brasa; é um amor que sobrevive ao caos. O amor que sinto por ti está, como esteve, como estará por algum tempo; é desse jeito que ele voa. Voando, pode ser que um dia ele vá embora, você mesmo me ensinou que tudo passa, que nada é inato, que tudo está e nunca é. Até lá, eu respeito o que sinto. Amor sou, mas o que te dou apenas está. Cuido do que sinto como quem cuida de um animal indefeso. Cuido do que sinto como cuido da rosa vermelha, que foi sugestão tua. Tua que sou. Não, corrijo-me: tua que estou, tua que estive, tua que queria ficar.

Tema base por Maira Gall | Edição por Giuliana Motyczka